Arqueólogos identificaram uma quantidade significativa de uma bebida alcoólica preservada há mais de 2.000 anos em um sítio arqueológico na China, oferecendo novos insights sobre os hábitos de consumo e as técnicas de produção de bebidas na época. A descoberta foi feita no sítio de Shanjiabao, localizado a aproximadamente dois quilômetros de uma antiga seção da Grande Muralha de Qin, no norte do país. Os pesquisadores encontraram cerca de 3,7 litros do líquido dentro de um vaso de bronze em formato de cabeça de alho, que permaneceu em condições quase intactas graças a uma técnica de vedação de dupla camada, composta por um revestimento interno de tecido e uma camada externa de argila orgânica.
Segundo Wang Xiaoyang, chefe do projeto arqueológico do sítio pelo Instituto de Relíquias Culturais e Arqueologia de Ningxia, a técnica de vedação utilizada foi fundamental para a excelente conservação do conteúdo. Ele explica que essa técnica permitiu que o vinho antigo permanecesse praticamente intacto ao longo de mais de duas milênios. A descoberta é considerada, atualmente, a relíquia vinícola mais bem preservada e com maior quantidade de informações do período do Estado de Qin que foi divulgada publicamente na China.
As escavações no cemitério começaram em março de 2024, sob coordenação do Instituto de Arqueologia de Ningxia. Até o momento, foram identificados 183 túmulos datados do período dos Reinos Combatentes, sendo 179 relacionados à cultura Qin. A localização do sítio sugere que ele possa ter funcionado como um cemitério para soldados, suas famílias e outros moradores das fortificações instaladas ao longo da fronteira do Estado de Qin, que na época representava uma das principais linhas de defesa do território.
Para compreender o conteúdo do vaso, os pesquisadores realizaram análises laboratoriais na Universidade do Noroeste. Os testes revelaram a presença de 24 compostos diferentes, incluindo ácidos orgânicos, aminoácidos e carboidratos. A composição química indicou que se tratava de uma bebida alcoólica de cereais semelhante ao vinho amarelo chinês envelhecido, descartando a hipótese de que fosse uma bebida derivada de frutas, como uvas. A análise detalhada revelou que o ingrediente predominante era o painço (Panicum miliaceum), cereal amplamente cultivado na região de Ningxia na época, com mais de 92% do material de amido identificado tendo origem nesse grão. O restante era composto por amidos de trigo e cevada.
A relevância dessa descoberta reside na compreensão dos ingredientes utilizados na produção de bebidas fermentadas na China antiga, especialmente na região de Ningxia, durante os Reinos Combatentes, que ocorreram aproximadamente entre os séculos V e III a.C. Na região norte do país, o painço tinha papel central na fabricação de bebidas alcoólicas, ao passo que o arroz predominava em áreas do sul. A longa tradição de cultivo do painço na China, especialmente em ambientes secos, explica sua presença na composição da bebida, reforçando o entendimento sobre as práticas agrícolas e de produção de bebidas na época.
Além de oferecer informações sobre os ingredientes, a descoberta também fornece pistas sobre os rituais funerários do período. O vaso de bronze foi encontrado na tumba nº 39, próxima à Grande Muralha de Qin, uma das primeiras estruturas defensivas que posteriormente integrariam a vasta rede de muralhas que marcaram a história imperial chinesa. Durante os Reinos Combatentes, postos militares e fortificações eram essenciais para a defesa da fronteira do Estado de Qin, onde soldados, suas famílias e outros moradores viviam em comunidades próximas às estruturas defensivas. A presença do vaso na tumba sugere que ele tinha um papel simbólico ou ritual, possivelmente como oferenda para acompanhar o morto na vida após a morte.
A preservação do líquido é considerada uma das maiores conquistas da escavação, pois bebidas alcoólicas antigas raramente deixam resíduos químico-preservados em recipientes arqueológicos, dificultando a análise de sua composição original. Essa descoberta, portanto, preenche uma lacuna importante no entendimento das técnicas de produção de bebidas na China antiga, especialmente na região de Ningxia. Os estudos realizados contribuem para a reconstrução das tecnologias de fermentação e fabricação de cerveja utilizadas pelos povos do período, além de oferecer uma visão mais aprofundada sobre os aspectos culturais, sociais e rituais relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas na China antiga. Segundo Chen Ruru, doutoranda na Universidade do Noroeste e autora do estudo, o achado permite uma compreensão mais clara dos métodos de produção de cerveja na época, além de ajudar a aprimorar conhecimentos sobre o desenvolvimento tecnológico na história da fabricação de bebidas na China.







