Pesquisas recentes demonstram que os efeitos nocivos da poluição do ar vão além do sistema cardiorrespiratório, atingindo diretamente a saúde bucal. Um estudo conduzido com camundongos, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), revelou que a exposição ao material particulado fino (PM2,5) — um dos principais poluentes urbanos presentes na atmosfera das grandes cidades — provoca alterações nos tecidos bucais e intensifica a destruição dos tecidos periodontais, responsáveis pela sustentação dos dentes. Este foi o primeiro experimento de sua espécie a evidenciar de forma clara a relação entre a poluição atmosférica e danos na saúde bucal.
O estudo, realizado no Brasil, envolveu a colocação de animais em ambientes controlados, onde foram expostos ao ar contaminado coletado na região da avenida Doutor Arnaldo, na zona oeste de São Paulo. Os períodos de exposição variaram entre 30 e 60 dias. Os resultados, publicados na revista científica Air Quality, Atmosphere & Health, mostraram que alterações inflamatórias e estruturais nos tecidos bucais já eram evidentes após o primeiro mês de contato com o material poluente. Os pesquisadores observaram que a exposição ao PM2,5 agravou a inflamação nos tecidos periodontais e acelerou a perda óssea alveolar, um processo que compromete a estrutura de suporte dos dentes e é uma característica fundamental da periodontite — uma doença inflamatória que, se não tratada, leva à destruição dos tecidos de suporte e à perda dentária em adultos.
De acordo com Luis Carlos Spolidorio, professor da Faculdade de Odontologia da Universidade Estadual Paulista (FOAr-Unesp), campus de Araraquara, e coordenador do estudo, a relação entre poluição e saúde bucal foi uma surpresa. “Embora seja bem documentado que a poluição afeta diferentes órgãos, a cavidade oral, por estar constantemente exposta ao ambiente externo, não tinha sido inicialmente considerada como um órgão potencialmente afetado. O que encontramos foram alterações bastante expressivas nos tecidos bucais”, afirma. O estudo foi conduzido durante o mestrado de Álvaro Formoso Pelegrin, sob orientação de Spolidorio, com a participação de Jhonatan de Souza Carvalho, também da FOAr-Unesp, e de Victor Yuji Yariwake, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).
< h2 >Alterações na mucosa oral e sinais de inflamação< /h2 >
Entre as descobertas mais surpreendentes, os autores destacaram as mudanças na mucosa que reveste a língua, mesmo em animais sem inflamação periodontal induzida. Foram identificados sinais de espessamento do epitélio lingual, aumento na deposição de queratina — uma proteína que atua como barreira de proteção — e maior quantidade de mastócitos degranulados, células do sistema imunológico responsáveis pela liberação de substâncias inflamatórias. Essas alterações sugerem que a mucosa oral pode ser altamente sensível aos efeitos nocivos da poluição atmosférica.
Além das alterações estruturais, o estudo revelou aumento na produção de citocinas — sinalizadores inflamatórios — e de estresse oxidativo tanto na língua quanto nos tecidos periodontais. O estresse oxidativo ocorre quando há um desequilíbrio entre a geração de radicais livres, moléculas altamente reativas que podem danificar células, e a capacidade de defesa antioxidante do organismo. Esse mecanismo é considerado uma das principais vias pelas quais a poluição atmosférica pode prejudicar os tecidos bucais e contribuir para o agravamento de doenças periodontais.
< h2 >Implicações e perspectivas futuras< /h2 >
Luis Carlos Spolidorio destaca que a pesquisa representa um avanço importante na compreensão dos mecanismos celulares e moleculares que ligam a exposição ao material particulado aos danos na cavidade bucal. “Demonstramos, de forma experimental e controlada, que a mucosa oral sofre alterações quando exposta ao PM2,5, o que amplia o entendimento sobre os impactos da poluição na saúde bucal”, explica.
O especialista também ressalta que a poluição do ar pode afetar a saúde bucal por diferentes vias: a direta, por contato das partículas com a mucosa oral, e a indireta, por meio do impacto nos pulmões, que pode induzir inflamação sistêmica e estresse oxidativo em órgãos e tecidos distantes, incluindo a boca.
Os autores do estudo veem a pesquisa como um ponto de partida para investigações futuras, incluindo estudos clínicos em humanos para confirmar os mecanismos observados em animais. Há também interesse em replicar o experimento com fêmeas, para avaliar possíveis diferenças imunológicas e inflamatórias relacionadas ao sexo biológico.
Por fim, os pesquisadores reforçam a importância dos cuidados tradicionais com a saúde bucal, como escovação adequada, uso de fio dental, alimentação equilibrada e acompanhamento odontológico regular. Apesar de não ser possível eliminar completamente os efeitos da poluição atmosférica, a adoção dessas medidas é fundamental para minimizar os riscos. Além disso, Spolidorio enfatiza a necessidade de políticas públicas que promovam a melhoria da qualidade do ar, destacando que a proteção coletiva é essencial para reduzir os impactos da poluição na saúde de toda a população.







