Além de oferecerem companhia e conforto, cães e gatos possuem habilidades sensoriais que os capacitam a perceber mudanças físicas, químicas e comportamentais em seus tutores, muitas vezes além da capacidade humana. Essas habilidades, que parecem quase como um “sexto sentido”, têm sido objeto de estudos que demonstram a potencialidade desses animais na identificação precoce de doenças e na leitura de emoções humanas.
Cães, em particular, destacam-se por sua capacidade olfativa extremamente apurada. Possuem cerca de 300 milhões de receptores olfativos na região nasal, em comparação com aproximadamente cinco milhões em humanos. Essa sensibilidade permite que eles detectem odores em concentrações extremamente baixas, o que tem sido utilizado na identificação de diversos tipos de câncer, como de mama, bexiga e melanoma. Estudos publicados na revista científica Science revelam que os cães podem farejar gases exalados por pacientes com câncer de pulmão, apresentando uma taxa de diagnóstico comparável à de métodos tradicionais, como análise de tecido ou urina. Além disso, há treinamentos específicos para cães farejadores de infecções bacterianas, como a Pseudomonas, por meio de associações entre odores e recompensas, como brinquedos ou petiscos.
A estrutura anatômica do sistema olfativo canino inclui o chamado recesso olfativo, localizado atrás dos olhos, responsável por separar partículas de cheiro do ar inspirado, processando-as de forma que o odor não é expelido após a expiração. Essa característica, ausente em humanos e outros primatas, contribui para a alta sensibilidade olfativa dos cães. Segundo estudo divulgado pela revista Science, essa estrutura permite que eles mantenham a detecção de odores mesmo após a expiração, aumentando sua eficiência na tarefa de identificar doenças.
Os cães também demonstram capacidade de detectar sinais físicos e comportamentais de mudanças hormonais ou emocionais em humanos. Renata Roma, psicoterapeuta e pesquisadora na Universidade de Saskatchewan, no Canadá, explica que esses animais são altamente observadores. Eles percebem variações na voz, na expressão facial, na postura e até na respiração, que indicam alterações de humor ou saúde emocional. Pesquisas publicadas na revista Animal Cognition indicam que gatos, por sua vez, também podem perceber alterações no estado emocional de seus donos. Um estudo com 12 gatos e seus tutores revelou que esses felinos apresentaram comportamentos específicos dependendo do humor dos humanos, diferentemente quando estavam na companhia de estranhos, sugerindo uma leitura instintiva de padrões comportamentais.
A relação entre humanos e cães remonta a mais de 15 mil anos, resultado de um processo de domesticação que, segundo estudo publicado na revista Nature, produziu o mais antigo registro genético de cães domésticos. A seleção artificial ao longo desse período favoreceu características fisiológicas e comportamentais que facilitassem atividades como caça, pastoreio e companhia. Gatos, por sua vez, tiveram um processo de domesticação mais recente, entre 4 mil e 10 mil anos atrás, o que pode explicar a sutileza de suas percepções.
Diferentes raças de cães apresentam distintas aptidões na detecção de odores. Raças como bloodhound, beagle e pastor alemão destacam-se por sua capacidade olfativa, enquanto o border collie é reconhecido por sua habilidade de pastoreio. Segundo André Cavalieri, fundador da Dog Corner e especialista em comportamento animal, essas diferenças decorrem de adaptações evolutivas às tarefas específicas para as quais foram selecionadas, não de uma intenção de prever doenças ou emoções. Para aplicações de detecção de doenças, o fator mais importante é o treinamento estruturado, que permite ao animal identificar padrões específicos com alta precisão.
Além de suas funções na detecção de doenças, os animais de estimação contribuem para a melhora da saúde física e mental de seus tutores. Estudos indicam que a convivência com cães e gatos ajuda a reduzir a solidão, aliviar sintomas de ansiedade e até retardar o envelhecimento cerebral. Pesquisas realizadas por universidades de Genebra, Zurique e Lausanne demonstram que donos de cães apresentam melhor retenção de memória, enquanto os de gatos exibem um ritmo mais lento de declínio em habilidades como a fluência verbal. Além disso, a presença de animais de estimação favorece o desenvolvimento de habilidades sociais em crianças, promovendo empatia e vínculos mais inclusivos, além de facilitar a sociabilidade geral dos indivíduos.









