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Desmatamento na Amazônia aumenta risco de transmissão de doenças como Chagas e leishmaniose, apontam estudos

29/08/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:4 minutos de leitura
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Pesquisas realizadas no Acre revelam que o desmatamento na Amazônia influencia diretamente a dinâmica de transmissão de doenças endêmicas na região, como a leishmaniose e a doença de Chagas. Os estudos, conduzidos por uma equipe liderada pelo biólogo Gabriel Laporta, do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), mostram que áreas degradadas há mais tempo apresentam maior concentração de mosquitos-palha, transmissores do protozoário Leishmania, enquanto ambientes com menor cobertura florestal elevam a presença de barbeiros infectados pelo parasita Trypanosoma cruzi, especialmente próximos às residências.

Publicados nas revistas científicas Parasites & Vectors e PLOS One, esses trabalhos contribuem para o entendimento dos mecanismos de transmissão dessas doenças e reforçam a necessidade de incorporar indicadores ambientais às estratégias de vigilância epidemiológica na região. Os estudos complementam uma pesquisa anterior, de 2025, também liderada pelo mesmo grupo, que identificou um risco elevado de malária em áreas parcialmente desmatadas, com aproximadamente 50% de cobertura vegetal.

A série de investigações reforça a relação entre mudanças no uso da terra e o aumento da transmissão de doenças tropicais negligenciadas (DTNs), como a leishmaniose, Chagas e malária, todas consideradas endêmicas na Amazônia. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as DTNs afetam cerca de 1,4 bilhão de pessoas globalmente, mas continuam recebendo atenção e financiamento limitados em comparação com outras doenças.

Para os estudos, os cientistas realizaram levantamentos de campo em 20 pontos situados em um assentamento rural de Cruzeiro do Sul, município considerado o segundo maior do Acre, localizado na margem esquerda do rio Juruá. As atividades de coleta ocorreram em 2022 e 2024, em uma região que enfrenta constante pressão de desmatamento. Os pesquisadores analisaram a relação entre a presença de vetores e humanos em diferentes tipos de paisagens, desde áreas preservadas até regiões altamente degradadas, buscando compreender os impactos ambientais no risco de infecção.

Segundo Laporta, embora a relação entre desmatamento e aumento de zoonoses seja conhecida, há uma lacuna de dados empíricos que expliquem o mecanismo exato dessa associação. “Este projeto utiliza um assentamento no Acre como modelo, mas é possível fazer inferências para outras áreas da Amazônia. A mensagem principal é: precisamos restaurar as áreas degradadas”, afirma. Atualmente, o pesquisador está conduzindo uma nova fase do estudo, com foco na restauração de áreas com espécies nativas da floresta para avaliar, ao longo do tempo, os efeitos na saúde pública. Como parte dessa iniciativa, ele iniciou a digitalização de imagens do local e simulações de possíveis cenários de casos de malária após processos de recuperação ambiental, além de envolver a comunidade local no plantio de espécies nativas.

Laporta destaca que a compreensão do mecanismo de transmissão é fundamental, mas que ações concretas de intervenção, como a restauração ambiental, são essenciais para reduzir o risco de doenças graves, muitas vezes de tratamento complexo. “Queremos desenvolver um estudo de intervenção, promovendo a recuperação da floresta e monitorando os resultados ao longo do tempo. É um projeto de longo prazo, mas com grande potencial de impacto”, ressalta.

No que diz respeito à leishmaniose, os pesquisadores acompanharam áreas com diferentes níveis de cobertura florestal, verificando a relação entre as transformações na paisagem e as taxas de transmissão e infecção. A coleta de mosquitos-palha revelou que a espécie Nyssomyia antunesi é a mais predominante na região. A leishmaniose, transmitida por picadas de fêmeas infectadas do mosquito, apresenta duas formas principais: a cutânea, que causa feridas na pele e pode evoluir para lesões mucosas, e a visceral, que afeta órgãos internos e pode levar à morte em casos graves. Em Cruzeiro do Sul, a incidência anual média de leishmaniose cutânea é de três casos por 10 mil habitantes, sendo mais comum entre jovens do sexo masculino residentes em áreas rurais.

Os estudos indicam que a abundância de mosquitos-palha está mais relacionada ao momento do desmatamento, ou seja, ao período em que houve ocupação humana, do que à cobertura florestal atual. Os vetores conseguem se estabelecer e permanecer em ambientes modificados por anos, aumentando sua população conforme o assentamento se estabiliza e as atividades humanas persistem. Laporta relata que essa descoberta o surpreendeu, pois esperava maior risco nas áreas de floresta úmida, mas constatou que o aumento de vetores ocorre após o desmatamento e a ocupação humana.

No caso da doença de Chagas, o estudo revelou que o risco não está necessariamente associado à presença do barbeiro dentro das residências. Os triatomíneos, agentes do parasita Trypanosoma cruzi, frequentemente se escondem em frestas de paredes ou móveis parados, mas o desmatamento favorece a proximidade dos insetos às habitações, especialmente em palmeiras próximas às casas. Os barbeiros infectados, que se alimentam de sangue de animais silvestres, podem voar até as residências, aumentando o risco de transmissão à população humana. A pesquisa mostrou que a distância entre as palmeiras e as casas, modulada pelo grau de desmatamento, influencia a frequência de triatomíneos contaminados.

A doença de Chagas é transmitida por diversas vias, incluindo a ingestão de alimentos contaminados ou pelo contato com fezes do inseto durante a picada. Os sintomas variam de febre prolongada, dores de cabeça e fraqueza, até complicações cardíacas e digestivas em casos não tratados. O medicamento principal é o benznidazol, fornecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Os trabalhos, que envolvem equipes multidisciplinares de diferentes áreas, buscam não apenas compreender os mecanismos de transmissão, mas também contribuir para a formação de novos pesquisadores e para o desenvolvimento de estratégias de controle mais efetivas. Laporta destaca a importância da discussão integrada, que combina diferentes perspectivas para interpretar os dados e elaborar ações de intervenção ambiental.

Financiados pela FAPESP e pelo Programa Iniciativa Amazônia+10, os estudos reforçam a necessidade de ações sustentáveis na região. O pesquisador está atualmente na fase de implementar medidas de restauração de áreas degradadas, envolvendo a comunidade local na recuperação da vegetação nativa, com o objetivo de diminuir a incidência de doenças vetoriais. A expectativa é que, ao promover a recuperação ambiental, seja possível reduzir o risco de transmissão de doenças e melhorar a saúde pública na região amazônica.

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