Apesar do avanço das plataformas digitais e do protagonismo das redes sociais na comunicação política, o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão continua desempenhando um papel central nas estratégias de campanha no Brasil. Essa avaliação foi feita pelo cientista político Malco Camargos, que, em entrevista à Itatiaia, destacou como esses meios tradicionais oferecem vantagens distintas na comunicação com o eleitorado e permanecem relevantes na disputa eleitoral.
Camargos explicou que o formato atual do horário eleitoral gratuito funciona por meio de duas frentes estratégicas distintas, que visam conquistar o apoio do eleitor de maneiras diferentes. Segundo o especialista, os partidos políticos dividem seu tempo entre a exposição institucional e o embate direto nos comerciais veiculados durante a programação das emissoras de rádio e televisão. Essa divisão reflete uma tentativa de equilibrar a apresentação formal dos candidatos e a disputa por atenção por meio de mensagens mais diretas e agressivas.
Ele detalhou que a primeira estratégia consiste na utilização do bloco de 25 minutos de horário eleitoral, que é transmitido em diferentes horários do dia, como manhã, almoço e à noite. Nesse período, predominam conteúdos de caráter institucional, nos quais os candidatos têm a oportunidade de se apresentar formalmente, mostrar seus apoiadores e estabelecer uma identidade perante o eleitor. Camargos ressaltou que, especialmente no início das campanhas, esse tempo é utilizado principalmente para a apresentação dos candidatos, seus padrinhos políticos e para consolidar a imagem inicial de cada postulante.
Por outro lado, o especialista destacou que o uso do tempo destinado aos comerciais durante a programação é marcado por uma estratégia completamente diferente. Esses comerciais, que ocorrem fora do bloco de 25 minutos, são utilizados pelos candidatos para não apenas divulgar suas propostas, mas também para atacar seus adversários. É nesse espaço que ocorre o embate mais acentuado, com mensagens mais diretas, que buscam influenciar o eleitor por meio de confrontos e debates indiretos. Camargos reforçou que esse é o momento em que as campanhas realmente se intensificam na disputa de atenção e preferência do público.
O cientista político também abordou a diferença entre as propagandas tradicionais no rádio e na televisão e o ecossistema das redes sociais. Segundo ele, apesar do crescimento dessas plataformas digitais, o rádio e a TV ainda possuem uma vantagem importante: não são limitados por bolhas ideológicas. Camargos explicou que as redes sociais tendem a reforçar grupos de apoio já existentes, privilegiando o conteúdo de candidatos que possuem uma base sólida de seguidores, independentemente do tamanho do partido ou do grupo político ao qual pertencem.
Já a propaganda na TV e no rádio, por sua natureza mais ampla e diferenciada, favorece candidatos com maior estrutura partidária e maior quantidade de deputados ou apoiadores políticos. Essa característica pode gerar uma vantagem para candidatos de partidos mais tradicionais e estabelecidos, que conseguem garantir mais tempo de televisão e rádio, ampliando sua visibilidade perante o eleitorado. Camargos destacou, entretanto, que, nas redes sociais, é possível que candidatos de partidos menores, mas com grande número de seguidores e apoiadores, tenham um desempenho competitivo, independentemente do peso político de suas legendas.
A entrevista completa de Camargos reforça a importância contínua do horário eleitoral gratuito como ferramenta de comunicação política, mesmo em uma era dominada pelas redes sociais. Sua análise evidencia como esses meios tradicionais continuam sendo estratégicos na disputa eleitoral, especialmente por sua capacidade de atingir diferentes segmentos do eleitorado e de oferecer uma comunicação menos restrita por bolhas ideológicas.






