Neste ano, o cenário das negociações ambientais multilaterais apresenta uma convergência de agendas que, embora tradicionalmente tratadas de forma separada, demonstram cada vez mais a necessidade de ações integradas para enfrentar os desafios do planeta. Com eventos importantes agendados para ocorrer na Mongólia, Armênia e Turquia, as três principais conferências — COP17 de Combate à Desertificação, COP17 de Biodiversidade e COP31 do Clima — evidenciam que a resposta às mudanças ambientais não pode mais se limitar a ações isoladas, mas deve envolver uma abordagem holística que una conservação da biodiversidade, recuperação de solos e adaptação às mudanças climáticas.
A realização dessas conferências em um curto espaço de tempo reforça a compreensão de que os impactos ambientais, como secas, eventos extremos e degradação de ecossistemas, já demonstram na prática que a preservação da biodiversidade e o manejo sustentável dos recursos naturais são essenciais para aumentar a resiliência dos territórios. Em um momento de forte expectativa de um El Niño de alta intensidade, esses fenômenos naturais, embora inerentes ao clima, têm seus efeitos agravados por condições climáticas alteradas por emissões de gases de efeito estufa e investimentos insuficientes em adaptação. Como consequência, áreas de solo degradado, escassez hídrica e perda de biodiversidade reduzem a capacidade de resposta dos ecossistemas e das populações humanas, tornando ainda mais urgente a integração dessas agendas.
A COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, realizada em agosto na Mongólia, exemplifica essa convergência ao tratar de medidas globais para combater a degradação do solo, mitigar os efeitos da seca e promover o uso sustentável da terra. Um destaque importante foi o compromisso do Brasil com a meta de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN), que prevê a recuperação de 16,3 milhões de hectares de áreas degradadas até 2030. Apesar de atrasos na implementação, essa meta é considerada prioridade nacional, pois atua como uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, cujo impacto se intensifica com o aumento das emissões e a degradação dos recursos naturais. Assim, o Brasil se posiciona entre os países com maior área comprometida em ações de restauração e conservação do solo no âmbito da UNCCD.
Além disso, o resultado mais relevante para o país na COP17 foi a reafirmação de que terra e água devem ser considerados pilares centrais na integração entre clima, biodiversidade e sociedade. Essa perspectiva reforça a necessidade de ampliar investimentos na restauração de bacias hidrográficas, especialmente na Caatinga e no Cerrado, e na adoção de práticas agrícolas resilientes, que representam soluções integradas para questões ambientais, sociais e econômicas. Tais ações fortalecem a segurança hídrica, promovem a recuperação de paisagens produtivas e facilitam o financiamento de estratégias de adaptação baseadas em ecossistemas.
No âmbito financeiro, a conferência destacou que restaurar terras degradadas é um investimento estratégico, e não um ônus, contribuindo para a resiliência, a geração de meios de subsistência e a prosperidade. Apesar de um déficit global estimado em US$ 278 bilhões anuais para ações de restauração e resiliência à seca, o lançamento do Mecanismo de Investimento para a Resiliência à Seca (DRIF) representa um avanço importante, sendo o primeiro instrumento financeiro mundial dedicado especificamente a esse tema. Além disso, cerca de US$ 1,3 bilhão em recursos novos ou em fase de estruturação foram anunciados por governos, bancos de desenvolvimento, fundos de investimento e empresas, destinados a projetos de restauração e resiliência em 23 países.
A participação de povos indígenas, comunidades tradicionais e pastores na discussão em Ulan Bator reforçou a importância do conhecimento comunitário na gestão de paisagens e recursos naturais, princípio que atravessa também as negociações de Biodiversidade e Clima. Essa conexão será retomada em outubro, na COP17 de Biodiversidade, que realizará o primeiro balanço global sobre o progresso das metas para 2030 do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal. O momento é crucial para avaliar avanços e lacunas na implementação de compromissos, como a meta de conservar 30% do planeta até 2030 (a chamada meta 30×30), além de monitorar os impactos das atividades humanas sobre a biodiversidade e incorporar a natureza às decisões de setores econômicos e de infraestrutura.
Quando chegar a COP31 do Clima, em novembro, grande parte do esforço de implementação das ações climáticas já terá passado pelas negociações das outras duas convenções. Ainda assim, desafios permanecem, especialmente na área de adaptação, que enfrentou dificuldades em alcançar consenso na última reunião preparatória em Bonn. As decisões relativas à transição energética, combate ao desmatamento e mobilização de recursos continuam sendo pontos centrais na agenda, com o Brasil assumindo um papel de liderança na definição de estratégias para acelerar a implementação dessas metas.
A conexão entre as três convenções evidencia que a adaptação às mudanças climáticas depende de ações que envolvam manejo adequado da terra, proteção de ecossistemas e investimentos em infraestrutura sustentável. Essas iniciativas, que já vêm sendo discutidas na Mongólia e na Armênia, terão impacto direto na capacidade dos países de enfrentar eventos extremos e de cumprir suas metas globais. O financiamento é um elemento transversal a todas essas frentes, sendo necessário ampliar recursos públicos e privados para ações de restauração, conservação e adaptação, além de garantir que esses recursos cheguem às regiões mais vulneráveis.
A preservação de florestas tropicais, por sua vez, também é um componente fundamental dessa estratégia integrada. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) representa uma oportunidade de criar incentivos econômicos de longo prazo, reconhecendo o papel vital dessas áreas para a estabilidade climática, biodiversidade e segurança hídrica. Essa iniciativa demonstra que a separação entre financiamento climático, conservação da biodiversidade e desenvolvimento territorial pode limitar o impacto das ações, reforçando a necessidade de abordagens integradas.
Por fim, a questão institucional também se destaca. Apesar de cada convenção possuir mandatos próprios e processos de negociação distintos, há uma crescente demanda por maior coordenação entre as áreas responsáveis por políticas ambientais, de finanças, planejamento e infraestrutura. Essa integração é essencial para transformar compromissos internacionais em ações concretas nos níveis nacional e local. Com o calendário de 2026, há uma oportunidade concreta de consolidar esses esforços, criando condições políticas e financeiras que permitam aos países avançar na implementação de metas de restauração, conservação e adaptação, diante de um cenário de eventos climáticos mais extremos e pressões crescentes sobre os ecossistemas.









