Uma tumba com aproximadamente 4 mil anos, pertencente a um alto funcionário do Egito Antigo, foi recentemente descoberta na necrópole de Bubasteion, situada em Saqqara, próxima ao Cairo. A sepultura, atribuída a Sekhentio-Ptah, apresenta uma capela funerária intacta, além de uma porta falsa decorada com inscrições hieroglíficas e um conjunto de objetos utilizados em rituais de sepultamento. A relevância do achado reside na possibilidade de ampliar o entendimento sobre as cerimônias funerárias do período do Antigo Império, que se estendeu de 2649 a 2150 a.C., conforme informações divulgadas pelo jornal egípcio Al-Ahram.
Detalhes da tumba e inscrições que revelam o prestígio do proprietário
A porta falsa, elemento comum em túmulos egípcios, tinha uma função simbólica, representando uma passagem entre o mundo dos vivos e o dos mortos, embora não fosse uma passagem real. Segundo as crenças da época, ela permitia que o espírito do falecido transitasse simbolicamente entre esses dois planos. No caso de Sekhentio-Ptah, esse elemento foi encontrado preservado em seu local original, o que possibilita uma análise mais precisa de seu contexto. Ao redor da porta, os arqueólogos localizaram objetos de alabastro, como uma mesa de oferendas e uma bacia de purificação, que reforçam a importância do espaço ritual.
As inscrições hieroglíficas gravadas na porta falsa e nos objetos identificaram o proprietário da tumba, revelando seus títulos e funções. Sekhentio-Ptah teria desempenhado papéis de destaque na administração do Egito Antigo, incluindo cargos como Camareiro Real, Supervisor de Obras do Rei, Supervisor de Documentos Reais, Guardião dos Segredos dos Decretos Reais, além de Sacerdote da deusa Maat e Supervisor dos Escribas. Essa variedade de funções indica que ele fazia parte da elite administrativa do Estado, com responsabilidades que combinavam aspectos religiosos e burocráticos próximos ao poder real, refletindo seu elevado status social.
A conservação dos objetos no contexto original da tumba é de grande valor para a arqueologia, pois permite aos pesquisadores compreenderem a relação entre os elementos, a arquitetura do espaço e os rituais praticados. Em entrevista ao Al-Ahram, Hisham El-Leithy, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, destacou que a localização original do conjunto fornece informações importantes sobre os costumes funerários do período, contribuindo para o entendimento das práticas e tradições adotadas na época.
Outros achados na necrópole e seu significado
Além da tumba de Sekhentio-Ptah, a equipe de arqueólogos encontrou um sistema de poços funerários interligados, contendo diversos sepultamentos humanos. O local revelou ainda uma grande quantidade de cartonagem funerária pintada — material composto por fibras e tecidos utilizados na confecção de elementos que acompanhavam os mortos — e mais de 100 estatuetas ushabti de faiança, pequenas figuras destinadas a cumprir tarefas para o falecido no além.
Entre os achados mais notáveis estão três sarcófagos de pedra, todos selados e aparentemente intactos, além de uma estátua de madeira em forma de falcão, vasos de cerâmica e outros objetos arqueológicos. No entanto, alguns espaços apresentaram sinais de saque, com aberturas feitas entre as câmaras funerárias, indicando invasões por ladrões na antiguidade em busca de objetos de valor. Apesar disso, os materiais remanescentes continuam sendo considerados de grande importância científica, pois podem ajudar a reconstruir a organização interna da necrópole, seu desenvolvimento arquitetônico e as diferentes fases de uso do espaço ao longo do tempo.
Reutilização e evolução da necrópole ao longo dos séculos
As escavações, realizadas durante a primeira temporada no Setor A, a oeste do Bubasteion, revelaram que a necrópole foi utilizada e reutilizada ao longo de diferentes períodos históricos. Essa característica é uma das razões que tornam Saqqara um sítio arqueológico de grande valor, pois permite aos pesquisadores acompanhar as mudanças nas técnicas de construção de túmulos, nos rituais funerários e na organização do espaço ao longo de séculos.
Amr El-Tibi, responsável pela direção da escavação, afirmou ao Al-Ahram que os achados oferecem material relevante para estudar as práticas funerárias posteriores ao período do Antigo Império, além de ajudar a identificar as fases de reutilização da necrópole. A combinação de evidências de diferentes épocas revela a complexidade e a continuidade do uso do sítio ao longo da história egípcia.
Metodologia e potencial para novas descobertas
A investigação não se limitou à escavação de objetos, envolvendo também uma abordagem científica que inclui escavações cuidadosas, registro estratigráfico, documentação arquitetônica, registros fotográficos e digitais, além de estudos arqueológicos, linguísticos e comparativos. Segundo El-Tibi, o trabalho está apenas começando, e o local ainda possui potencial significativo para futuras descobertas que possam aprofundar o conhecimento sobre a história e o desenvolvimento da necrópole de Bubasteion.
A revista Archaeology destaca que a combinação dos achados, como a tumba de Sekhentio-Ptah e os poços funerários, permite uma compreensão mais ampla sobre quem foi esse alto funcionário e como diferentes gerações de egípcios utilizaram, modificaram e, em alguns casos, violaram esse espaço ao longo de milhares de anos. Essas evidências reforçam a importância de Saqqara como uma das áreas arqueológicas mais relevantes do Egito, marcada por uma história de ocupação contínua e múltiplas fases de uso.








