Um estudo recente realizado por pesquisadores da NYU Langone Health, nos Estados Unidos, sugere uma possível associação entre o uso de medicamentos que atuam como agonistas do receptor de GLP-1 e um aumento no risco de perda de cabelo em homens geneticamente predispostos à calvície. Publicada na revista científica Journal of Investigative Dermatology em 3 de outubro de 2023, a pesquisa aponta que homens com histórico familiar de alopecia androgenética podem apresentar até 7% de risco adicional de desenvolver queda de cabelo ao utilizarem medicamentos como Mounjaro, Ozempic, Wegovy e Zepbound.
A investigação se concentrou na relação entre a atividade de um gene chamado GLP1R, responsável pela produção de receptores de GLP-1, e a ocorrência da alopecia androgenética, a forma hereditária mais comum de calvície masculina. Os resultados indicam que há uma associação biológica entre a atividade elevada desse gene e a predisposição à perda de cabelo, embora os autores ressaltem que isso não significa que todos os usuários desses medicamentos experimentarão necessariamente a calvície ou que esses remédios sejam a causa direta do problema. A pesquisa revelou uma possível ligação genética que ainda necessita de estudos adicionais para confirmação.
O hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo organismo, desempenha papel importante no controle da glicemia e do apetite. Os medicamentos que mimetizam sua ação, conhecidos como agonistas de GLP-1, são amplamente utilizados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Para investigar uma possível conexão com a queda de cabelo, os pesquisadores analisaram a atividade do gene GLP1R em relação às características genéticas associadas à alopecia androgenética, que geralmente inicia na região frontal e no topo da cabeça, apresentando forte componente hereditário.
A análise revelou uma maior probabilidade de relação entre a atividade elevada do gene e a presença de calvície de padrão masculino. Segundo os autores, essa sobreposição sugere que a ação do GLP-1 e a perda de cabelo podem estar biologicamente relacionadas. Lynn Petukhova, pesquisadora sênior do estudo e professora na NYU Grossman School of Medicine, destacou que essa é a primeira ligação genética que conecta o uso de medicamentos que atuam sobre o GLP-1 a um risco aumentado de calvície de padrão masculino, uma hipótese que até então tinha sido apenas suspeitada.
Para validar os resultados, os pesquisadores realizaram análises levando em consideração fatores já associados à perda de cabelo, como hipertensão, resistência à insulina — relacionada ao diabetes tipo 2 — e níveis reduzidos de testosterona. Mesmo após esses ajustes, o aumento de 7% no risco, ligado à atividade do gene GLP1R, permaneceu estatisticamente significativo, reforçando a hipótese de que a associação não pode ser explicada unicamente por essas condições.
A questão da queda de cabelo relacionada ao uso de medicamentos à base de GLP-1 já vinha sendo relatada por usuários de diferentes faixas de gênero, especialmente devido à perda rápida de peso provocada por esses tratamentos. Medicamentos como Mounjaro, Ozempic, Wegovy e Zepbound atuam sobre mecanismos hormonais que controlam a glicemia e promovem a redução do apetite. Em alguns casos, a perda de peso acelerada pode desencadear uma queda temporária dos fios, que muitas vezes se recupera após alguns meses, quando o peso se estabiliza.
No entanto, o novo estudo amplia essa discussão ao indicar que, em homens com predisposição genética, a própria ação do GLP-1 pode estar relacionada ao risco de calvície, independentemente de fatores como perda de peso ou resistência à insulina. Apesar do potencial impacto, os autores alertam para as limitações do estudo e ressaltam a necessidade de novas pesquisas para compreender os mecanismos biológicos envolvidos na relação entre o uso desses medicamentos e a saúde capilar.
Entre as possibilidades futuras, os pesquisadores sugerem a realização de testes genéticos que possam identificar homens com maior risco de queda de cabelo antes do início do tratamento com medicamentos à base de GLP-1. Caso essa relação seja confirmada por estudos adicionais, tratamentos preventivos, como o uso de minoxidil, poderiam ser considerados em combinação com os medicamentos para controle de peso ou diabetes, visando preservar os fios enquanto se trata a condição clínica principal. A investigação ainda está em fase inicial, mas abre caminhos para uma abordagem mais personalizada e preventiva na prescrição de medicamentos que atuam sobre o sistema hormonal do organismo.









