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Naufrágio de navio-hospital da Segunda Guerra Mundial se torna habitat para espécies invasoras e refúgio para fauna ameaçada

03/09/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:3 minutos de leitura
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Um navio-hospital afundado durante a Segunda Guerra Mundial, localizado na baía de Vlora, na Albânia, transformou-se em um importante ponto de biodiversidade marinha, abrigando uma variedade de espécies, incluindo animais raros e invasores. A estrutura, que foi atingida por um torpedo lançado por um avião britânico Fairey Swordfish em 1941, durante a Guerra Greco-Italiana, hoje funciona como um recife artificial, oferecendo abrigo e suporte para uma comunidade marinha diversificada. Estudos realizados entre 2022 e 2024 revelaram que aproximadamente 80% da superfície do naufrágio está coberta por vida marinha, composta por 28 espécies de peixes, além de ovos de lulas e outros organismos que colonizaram os destroços. Esses dados foram publicados em um estudo na revista Frontiers in Ocean Sustainability, contribuindo para o entendimento sobre o papel ecológico de estruturas submersas antigas.

O processo de colonização do navio, conhecido como formação de recife artificial, ocorre devido às irregularidades na estrutura metálica, que favorecem a fixação de algas e pequenos organismos, formando um habitat que atrai predadores e outros animais marinhos. Apesar de a baía de Vlora já ter sido objeto de estudos prévios, os pesquisadores destacam que havia uma lacuna de informações específicas sobre a fauna associada aos destroços e sua influência no ambiente local.

Entre as espécies observadas, destaca-se o peixe-leão (Pterois miles), uma espécie invasora originária do Mar Vermelho e do Oceano Índico Ocidental, que vem expandindo sua presença no Mediterrâneo. Os cientistas registraram até sete exemplares simultaneamente nas proximidades do naufrágio, indicando que o local funciona como um ponto de apoio para esses peixes enquanto eles se dispersam por novas áreas. Essa expansão é atribuída ao aumento das temperaturas das águas e à entrada de organismos tropicais pelo Canal de Suez, fenômeno relacionado às mudanças climáticas globais. Segundo Simone Modugno, mergulhadora científica da Universidade de Ferrara, na Itália, e autora principal do estudo, a rápida chegada de espécies exóticas ao Mediterrâneo é um efeito previsível das alterações climáticas, que têm acelerado a introdução de organismos tropicais na região. Ela também aponta que fatores como temperaturas elevadas e mudanças na salinidade contribuem para esse avanço, prevendo que o peixe-fogo-diabo poderá se tornar um problema ambiental na região nos próximos dez anos.

Outra descoberta significativa relacionada ao naufrágio foi a reaparição de uma foca-monge-do-mediterrâneo (Monachus monachus), registrada em agosto de 2023. Considerada uma espécie criticamente ameaçada, ela foi vista descansando entre as cavidades do navio, sendo a primeira observação confirmada na baía de Vlora desde 1996. A presença do animal sugere que os destroços oferecem um refúgio alternativo para espécies que enfrentam dificuldades devido à pressão de atividades humanas, como o turismo e a pesca. As focas-monge, que normalmente utilizam cavernas marinhas protegidas, podem encontrar nos destroços uma alternativa segura para descanso e proteção, embora esses ambientes artificiais não substituam completamente seus habitats naturais, que estão cada vez mais fragmentados e ameaçados. A pesquisa evidencia o papel potencial de estruturas humanas submersas na conservação de espécies vulneráveis, especialmente em regiões onde os habitats naturais estão em declínio.

Este cenário evidencia a complexidade dos efeitos ambientais decorrentes de antigos naufrágios e o impacto das mudanças climáticas na expansão de espécies invasoras e na recuperação de populações ameaçadas. Os estudos realizados reforçam a importância de monitorar esses ambientes, que se transformaram em importantes habitats artificiais, contribuindo para a compreensão dos processos ecológicos e para a formulação de estratégias de conservação marinha.

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