Pesquisadores identificaram alterações significativas no cérebro humano durante a faixa etária de 50 a 75 anos, destacando uma fase de reorganização que envolve diferentes sistemas celulares e genômicos. O estudo, publicado em 23 de julho na revista científica Science, analisou células individuais do hipocampo, região cerebral essencial para processos de aprendizagem e memória, buscando compreender como a regulação genética e a organização tridimensional do genoma evoluem com o envelhecimento.
A pesquisa abordou amostras de adultos de diversas idades para mapear as mudanças na estrutura celular e molecular do cérebro ao longo do tempo. Os resultados indicam que, nesse período, o cérebro passa por uma espécie de reconfiguração coordenada, que pode explicar por que a idade é um fator de risco para doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. Em vez de um declínio meramente progressivo, as evidências apontam para uma série de alterações simultâneas em diferentes sistemas cerebrais.
Uma das principais descobertas envolve as células do sistema imunológico cerebral, conhecidas como micróglias. Essas células, responsáveis por proteger e manter o funcionamento do cérebro, apresentam uma redução acentuada na quantidade de micróglias originadas durante o desenvolvimento embrionário, entre os 50 e 75 anos. Ao mesmo tempo, essas células são substituídas por outras com características moleculares semelhantes às células imunológicas presentes no sangue, o que contraria a ideia de que as micróglias formadas na infância permanecem inalteradas ao longo da tempo. Além disso, as novas células exibem sinais inflamatórios mais intensos, sugerindo uma possível contribuição para processos inflamatórios crônicos no cérebro durante o envelhecimento.
Segundo Bing Ren, um dos autores do estudo, as micróglias desempenham papel fundamental na manutenção do equilíbrio cerebral. Quando essas células deixam de desempenhar suas funções adequadamente, há um acúmulo de materiais tóxicos, que pode desencadear processos inflamatórios e favorecer o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas. Os pesquisadores também observaram uma redução significativa na quantidade de células que contribuem para a integridade da barreira hematoencefálica, uma estrutura que atua como uma proteção contra substâncias nocivas presentes na circulação sanguínea.
Além das alterações celulares imunológicas, o estudo revelou que a organização do DNA dentro do núcleo celular também sofre deterioração com o avanço da idade. A estrutura tridimensional do genoma, que regula a ativação ou desativação de genes, torna-se menos ordenada em diferentes tipos de células cerebrais. Essa desorganização sugere que a deterioração da arquitetura do genoma pode ser uma característica importante do envelhecimento cerebral, contribuindo para o declínio funcional do órgão ao longo do tempo.
As descobertas reforçam a ideia de que o envelhecimento cerebral envolve uma remodelação conjunta de diversos sistemas, incluindo células imunológicas, vasos sanguíneos, neurônios e a própria organização do DNA. Segundo Xiangmin Xu, coautor do estudo, compreender essas mudanças é fundamental para identificar novos alvos terapêuticos que possam preservar os circuitos neurais e o funcionamento cerebral ao longo da vida.
O estudo, realizado em colaboração com outras seis pesquisas, oferece novas ferramentas para que cientistas investiguem como alterações na organização do genoma participam do desenvolvimento, envelhecimento e de doenças neurodegenerativas. Essas informações representam um avanço importante na compreensão do envelhecimento cerebral, possibilitando o desenvolvimento de estratégias mais eficazes para prevenir ou tratar condições relacionadas à idade.








