Uma nova biografia autorizada de Stephen Hawking, intitulada “Hawking: His Life and Work” e prevista para ser lançada em 2026, traz uma abordagem mais crítica e detalhada sobre a trajetória do renomado físico britânico. Escrita por Graham Farmelo, a obra incorpora documentos inéditos de familiares e outras fontes, oferecendo uma visão que vai além da imagem pública do cientista, destacando aspectos de sua personalidade que, ao longo de décadas, foram minimizados devido à sua deficiência e ao impacto de sua carreira internacional.
Hawking faleceu em março de 2018, aos 76 anos, após décadas de luta contra a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA), uma doença neurodegenerativa que deteriora progressivamente os músculos e os movimentos. Diagnosticado ainda jovem, com uma expectativa de vida inicialmente estimada em menos de dez anos, ele conseguiu desafiar as previsões médicas e construir uma carreira científica de grande influência, tornando-se uma figura de destaque na física teórica.
No entanto, a nova biografia apresenta uma perspectiva menos idealizada de sua personalidade. Segundo Farmelo, relatos de familiares, colegas e ex-alunos revelam um perfil egocêntrico, competitivo e controlador, características que, durante anos, foram ofuscadas pela admiração por suas contribuições científicas. Além de demonstrar dificuldades em reconhecer as realizações de outros pesquisadores, Hawking também teria exibido atitudes que geraram conflitos, incluindo episódios envolvendo sua relação com colegas e estudantes.
Antes de se consolidar como uma celebridade global, Hawking construiu seu nome a partir de estudos fundamentais sobre a origem e o funcionamento do universo. Na Universidade de Cambridge, na década de 1960, ele se aproximou das pesquisas do físico Roger Penrose, que investigavam o colapso gravitacional de estrelas e a formação de buracos negros. Com base nessas ideias, Hawking percebeu que o processo de colapso poderia estar relacionado à origem do universo, culminando, em 1970, em um artigo conjunto com Penrose sobre as condições que levam à singularidade, conceito que descreve uma situação extrema onde as leis físicas convencionais deixam de se aplicar.
Sua contribuição mais famosa veio em 1974, ao propor que buracos negros não seriam completamente escuros, como se pensava anteriormente. Utilizando conceitos da mecânica quântica, Hawking calculou que esses objetos emitiriam radiação — posteriormente conhecida como “radiação Hawking” — o que implicava que, sob certas condições, eles poderiam perder energia ao longo do tempo e, eventualmente, desaparecer. Essa descoberta combinou diferentes áreas da física, incluindo gravidade, termodinâmica, mecânica quântica e teoria da informação, e marcou um avanço significativo na compreensão do universo.
Contudo, a biografia também aborda a forma como Hawking reconhecia ou deixava de reconhecer as contribuições de seus colegas. Desde seus primeiros trabalhos, há indícios de uma postura egocêntrica, exemplificada pelo episódio envolvendo Roger Penrose e, mais controversamente, o físico Jacob Bekenstein. Bekenstein propôs uma relação entre a área de um buraco negro e sua entropia, uma grandeza que mede a desordem de um sistema. Hawking inicialmente rejeitou essa ideia, mas posteriormente chegou a conclusões compatíveis, embora, segundo relatos, tenha apresentado seus resultados de modo a associá-los principalmente ao seu próprio nome, sem dar o devido crédito ao colega.
A biografia também relata episódios envolvendo estudantes de Hawking, indicando uma postura distante e, por vezes, autoritária. Apesar de alguns relatos de que o físico podia ser atencioso, há registros de tentativas de retirar de Cambridge um aluno cujo trabalho contrariava suas conjecturas sobre buracos negros. Além disso, colegas de profissão apontam que suas palestras, ao longo dos anos, se tornaram excessivamente centradas em sua própria trajetória, o que gerava desconforto entre alguns pesquisadores, que evitavam críticas públicas por receio de parecerem insensíveis à condição de Hawking.
A obra de Farmelo também se debruça sobre a vida familiar do cientista, revelando um lado mais complexo e, por vezes, problemático. Segundo relatos, seu pai, Frank Hawking, teria se preocupado com o comportamento do filho na adolescência, enquanto sua irmã, Mary, descreve Stephen como “uma das pessoas mais egocêntricas que já conheceu”. O próprio Hawking teria sido considerado por alguns familiares como extremamente competitivo e pouco interessado em perder, mesmo em jogos de tabuleiro. Relações familiares marcadas por distanciamento e controle também são destacadas, com a mãe, Isobel, reclamando que o filho ignorava pessoas quando lhe convinha, e o irmão adotivo, Edward, relatando nunca ter se sentido realmente próximo dele.
O casamento de Hawking com Jane Hawking também é retratado sob uma luz mais complexa. A biografia evidencia os desafios enfrentados pela esposa para conciliar a vida familiar com as limitações do físico, que, ao longo dos anos, teve sua mobilidade e comunicação progressivamente comprometidas. Relatos indicam que Hawking ridicularizava as crenças religiosas de Jane e que suas exigências, aliadas à pouca atenção aos interesses dela, contribuíram para um isolamento emocional da esposa.
Ao incorporar esses aspectos pessoais e profissionais, Farmelo oferece uma narrativa que desafia a imagem idealizada de Hawking, uma abordagem que já havia sido explorada, embora de modo mais superficial, na obra “Hawking Hawking” (2021), de Charles Seife. A novidade da biografia reside na sua disposição em apresentar uma visão mais completa e menos idealizada do físico, destacando suas imperfeições e contradições, sem, contudo, diminuir suas contribuições científicas de destaque.







