Quarenta anos após realizar sozinho uma travessia de remo pelo Oceano Atlântico Sul, o navegador brasileiro Amyr Klink acompanha a transformação de sua expedição em uma produção cinematográfica. O filme intitulado “100 Dias”, dirigido pelo renomado cineasta Carlos Saldanha, é uma adaptação do livro que relata a jornada de 1984, quando Klink partiu de Lüderitz, na Namíbia, com destino à Bahia, enfrentando as adversidades do mar aberto.
Klink revelou ao portal UOL que concedeu total liberdade criativa à equipe de produção na adaptação do seu relato. “O livro é meu, uma obra de grande sucesso há 40 anos, mas o filme é de responsabilidade do diretor. Eu disse: ‘Você tem liberdade poética para ir até a lua. Não vou interferir'”, afirmou. O navegador destacou ainda a atenção meticulosa dos responsáveis em recriar fielmente os relatos do livro, o que o impressionou positivamente.
Apesar de o filme enfatizar o caráter épico das tempestades e dos perigos enfrentados em alto-mar, Klink destacou que os momentos mais difíceis não ocorreram na água, mas na fase preparatória em terra. Segundo ele, as maiores dificuldades surgiram antes do embarque, especialmente no Brasil, devido a obstáculos burocráticos, como problemas com a Cacex do Banco do Brasil, que dificultaram a exportação do barco para a África. Ele brincou, dizendo que, no fim, a única tarefa era remar até o Brasil, referindo-se às complicações enfrentadas na fase de organização.
A produção cinematográfica também busca retratar fenômenos naturais pouco comuns, como a ardentia — biolumescência produzida por plâncton — além da presença de baleias e tubarões durante a travessia. Para alcançar um alto nível de realismo nesses detalhes, a equipe trabalhou em parceria com estúdios na Finlândia, responsáveis pelos efeitos visuais, design de som, trilha sonora e pós-produção.
Ao refletir sobre as mudanças ambientais desde a década de 1980, Klink apontou alterações no clima e na vida marinha. Ele citou o exemplo de um jovem velejador que refez o mesmo percurso recentemente, levando 136 dias, quase o dobro do tempo de sua expedição. Segundo o navegador, o aumento da temperatura da água acelerou a formação de cracas no casco da embarcação, elevando o arrasto e dificultando a navegação. Além disso, ele observou uma presença diária de tubarões ao longo do trajeto, algo que não era comum na época. Klink também destacou a maior compreensão atual sobre fenômenos climáticos como El Niño e La Niña, que influenciam o clima global e marinho.
A postura pragmática de Amyr Klink também se refletiu na educação de seus filhos. Sobre Tamara Klink, que também é navegadora, ele comentou que a filha busca autonomia e que deixou claro que ela deveria construir sua própria história. Klink afirmou que a geração Z, à qual Tamara pertence, tende a se expor mais, enquanto ele mesmo preferiu manter um perfil mais discreto, evitando chamar atenção para si.
A estreia do filme “100 Dias” está marcada para 29 de outubro nos cinemas brasileiros. A produção combina efeitos visuais internacionais e uma narrativa que valoriza o planejamento, a resistência e a coragem necessárias para resgatar uma das experiências mais marcantes da navegação brasileira.









