Arqueólogos do Egito anunciaram a descoberta de uma tumba com aproximadamente 1.700 anos de idade, localizada na região de Bir al-Shughala, no Oásis de Dakhla. O sepultamento, construído em calcário, guarda um raro poema funerário escrito em grego antigo, além de inscrições hieroglíficas e objetos que evidenciam a coexistência de diferentes tradições culturais e religiosas ao longo de vários períodos históricos.
A tumba foi identificada como pertencente a um homem chamado Pisechtes, cuja sepultura também abriga os restos de sua esposa. O destaque da descoberta é uma inscrição de 19 versos na qual o filho do falecido, Sarapion, expressa seu luto e faz um apelo direto ao pai, com a frase “Escute, pai!”, solicitando que ele receba as libações e ritos realizados pelos familiares. Essa mensagem, encontrada em uma placa de pedra fixada na parede da tumba, revela aspectos emocionais e culturais do período, além de indicar que Pisechtes possivelmente ocupou uma posição de destaque na sociedade, possivelmente como juiz, conforme análise preliminar do Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, divulgada na última sexta-feira (25).
Híbrido cultural e religioso na arquitetura e nos textos
A presença do poema em grego demonstra a influência da cultura helenística na região, refletindo uma convivência de tradições egípcias e gregas. Enquanto o poema destaca qualidades do falecido, como bondade e sabedoria, além de descrevê-lo como um “conselheiro na vida”, as paredes da tumba preservam textos e imagens ligados à religião egípcia, incluindo referências ao Amduat, um antigo texto religioso que narra a jornada do deus sol pelo mundo subterrâneo.
A estrutura da tumba apresenta uma arquitetura típica de sepulturas de elite: uma estrutura superior em formato de pirâmide, uma escadaria de 14 degraus decorada com um disco solar e representações do deus Osíris, além de inscrições hieroglíficas espalhadas na câmara principal. Entre as imagens, destaca-se uma representação rara relacionada à sétima hora da jornada do sol, indicando a importância de elementos ritualísticos e simbólicos na proteção do morto.
Objetos e evidências de usos posteriores
As escavações também revelaram diversos objetos associados às práticas funerárias, incluindo uma mesa de oferendas, uma bacia de purificação, peças de cerâmica e uma moeda de prata com a imagem do imperador romano Constantino. Este último, que governou o Império Romano entre 306 e 337 d.C., é conhecido por suas ações favoráveis ao cristianismo. No entanto, os pesquisadores não encontraram na tumba evidências de textos ou decorações cristãs, indicando que o espaço pode ter sido reutilizado posteriormente, possivelmente durante períodos posteriores ao sepultamento original. Uma estrutura de tijolos de barro, localizada sobre a entrada principal, sugere uma intervenção posterior à construção inicial.
Contexto histórico e significado da descoberta
Bir al-Shughala é considerada uma das regiões mais relevantes do interior do Oásis de Dakhla, por sua riqueza arqueológica que remonta ao período romano e bizantino. Desde 2002, as escavações na área têm identificado uma variedade de tumbas com diferentes estilos arquitetônicos, que combinam elementos egípcios tradicionais com influências romanas e bizantinas. Essas construções indicam que a região foi um centro de sepultamento para membros das camadas mais abastadas da antiga cidade de Mothis, cuja importância se estendeu por vários períodos históricos.
Segundo Sherif Fathi, ministro do Turismo e Antiguidades do Egito, a descoberta reforça a diversidade do patrimônio arqueológico do país, ao reunir registros de diferentes tradições culturais em um único espaço. O poema em grego, as inscrições hieroglíficas e os objetos romanos oferecem uma visão abrangente de como práticas religiosas, costumes funerários e manifestações culturais coexistiam na região há cerca de 1,7 mil anos, refletindo a complexidade e a pluralidade do Egito antigo durante a transição entre diferentes eras e influências culturais.









