Uma ocorrência rara de transmissão de câncer entre gêmeas idênticas no útero foi o foco de uma investigação conduzida por pesquisadores na Inglaterra, que revelou detalhes inéditos sobre o desenvolvimento embrionário e a disseminação de células tumorais durante a gestação. O caso envolve duas irmãs, Amelia e Amaya, que nasceram por cesariana após 34 semanas de gestação e morreram pouco tempo após o nascimento devido a um tipo extremamente raro de câncer que se formou durante a gravidez. A análise genética do material coletado após a morte das gêmeas mostrou que células cancerígenas de uma delas foram capazes de atingir a outra, provavelmente por meio dos vasos sanguíneos compartilhados na placenta.
A investigação, publicada na revista Nature Communications em 6 de outubro, buscou responder se a doença surgiu de forma independente em cada uma das irmãs ou se a transmissão ocorreu durante a gestação. Para isso, os cientistas realizaram o sequenciamento completo do genoma de 45 amostras de células provenientes de órgãos, tumores e da placenta, permitindo distinguir as alterações genéticas específicas de cada uma. Os resultados indicaram que o câncer teve origem em uma única alteração genética, uma fusão anormal entre os genes MN1 e ZNF341, identificada na irmã considerada como gêmea A, ocorrida por volta do fim do primeiro trimestre de gravidez.
Os tumores, classificados como sarcomas de tecidos moles, afetaram diferentes regiões do corpo da primeira irmã, incluindo rosto, cérebro e fígado. No entanto, ao final do segundo trimestre, células cancerígenas de Amelia foram encontradas na outra irmã, Amaya, confirmando a hipótese de que o câncer se disseminou através da circulação sanguínea compartilhada pela placenta. Essa troca de células tumorais, embora extremamente rara, demonstra uma via excepcional de transmissão de câncer durante a gestação, sem que isso signifique uma transmissão comum ou uma condição frequente em gestações gemelares.
A explicação mais plausível para a passagem das células malignas é a circulação sanguínea compartilhada, que ocorre devido à conexão dos vasos sanguíneos na placenta, órgão que permite a troca de nutrientes e substâncias entre os fetos. Os pesquisadores sugerem que uma única célula cancerígena teria sido transferida de uma irmã para a outra, multiplicando-se e formando novos tumores. Essa descoberta reforça a singularidade do caso, destacando uma via de disseminação tumoral que raramente é observada na prática clínica.
Além do aspecto clínico, o estudo trouxe uma revelação importante sobre a formação de gêmeos idênticos. A teoria tradicional afirma que eles surgem de um único embrião que se divide, formando duas partes geneticamente semelhantes. Contudo, a análise genética das irmãs revelou que apenas uma célula do embrião inicial contribuiu para a formação de Amelia, enquanto todas as demais células deram origem a Amaya e à placenta, indicando uma dinâmica mais complexa na formação de gêmeos idênticos. Essa constatação sugere que o desenvolvimento embrionário pode envolver processos mais variados do que a divisão simétrica de um embrião único, embora seja necessário ampliar as investigações para determinar se esse padrão ocorre em outros casos.
A equipe de pesquisadores planeja aprofundar os estudos para compreender melhor os mecanismos de organização embrionária nos estágios iniciais e a contribuição de diferentes células na formação da placenta. O estudo de caso, embora singular, oferece insights importantes sobre a biologia do desenvolvimento humano e os riscos associados à circulação de células durante a gestação de gêmeos idênticos.









