Astrônomos identificaram um sistema na Via Láctea, a aproximadamente 300 anos-luz da Terra, no qual uma estrela de baixa massa está gradualmente acumulando material de uma anã marrom, um fenômeno que representa uma forma de “canibalismo estelar” pouco comum na astronomia. A descoberta, publicada em 5 de outubro na revista Nature Astronomy, marca a primeira observação de um objeto de baixa massa consumindo de maneira contínua e lenta outro corpo também de baixa massa, diferindo do cenário habitual em que estrelas maiores engolem corpos menores de forma rápida.
O sistema, denominado ZTF J0440+2325, consiste em uma estrela de baixa massa — uma anã vermelha — e uma anã marrom, também conhecida como “estrela fracassada” devido à sua insuficiente massa para iniciar a fusão nuclear. Esses dois corpos estão extremamente próximos, com a anã marrom completando uma órbita ao redor da estrela a cada 87 minutos, numa trajetória que caberia dentro do diâmetro do Sol. A estrela possui aproximadamente 85 vezes a massa de Júpiter, enquanto a anã marrom tem cerca de 25 vezes a massa do planeta.
A descoberta foi possível graças ao trabalho do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), especialmente pelo esforço do professor assistente Kevin Burdge, que utilizou dados do Zwicky Transient Facility (ZTF). Este equipamento, instalado em um telescópio no Observatório Palomar, na Califórnia, é projetado para detectar rápidas variações de brilho no céu. Durante uma análise de rotina, Burdge observou uma curva de luz incomum, que apresentava um padrão triangular recorrente, diferindo dos formatos tradicionais de variações de brilho observadas em outros sistemas binários.
Inicialmente, os pesquisadores consideraram a possibilidade de tratar-se de um sistema conhecido como “binários de viúva-negra”, onde uma estrela de nêutrons extremamente densa consome lentamente uma companheira menor. No entanto, a análise detalhada e observações subsequentes indicaram que o sistema consistia em uma estrela de baixa massa orbitando uma anã marrom, com os corpos extremamente próximos, o que levou à hipótese de transferência de material por um processo chamado acreção.
Diferentemente de outros fenômenos observados em objetos compactos, neste caso, o material proveniente da anã marrom não forma um disco de acreção ao redor da estrela, mas cai diretamente sobre sua superfície em alta velocidade. Para verificar essa hipótese, os pesquisadores realizaram simulações que mostraram que partículas de matéria provenientes da anã marrom atingiriam a superfície da estrela, confirmando o processo de transferência de massa.
A transferência de material ocorre de forma extremamente lenta, com a anã marrom perdendo aproximadamente um centésimo de milionésimo da massa da Terra por ano para a estrela. Apesar de parecer uma quantidade significativa, ela representa uma fração mínima da massa total da anã marrom, permitindo que o processo se prolongue por bilhões de anos. Essa transferência contínua gera um padrão de brilho triangular, causado pelo aquecimento de uma região no ponto de impacto do material na superfície da estrela, que entra e sai do campo de visão da Terra à medida que o sistema orbita.
Segundo os pesquisadores, esta descoberta abre possibilidades para a identificação de outros sistemas semelhantes, nos quais corpos de baixa massa interagem de maneiras diferentes do cenário clássico de rápida absorção por estrelas maiores. A observação indica que esses processos podem se estender por períodos de bilhões de anos, revelando novas formas de interação entre estrelas e objetos subestelares na nossa galáxia.








