Um estudo recente realizado por pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst (UMass Amherst), nos Estados Unidos, revelou que duas espécies de aves brasileiras atingem níveis de vocalização que podem superar o barulho de ferramentas de construção, como britadeiras, e até mesmo de motosserras em funcionamento. Essas aves, a araponga-de-garganta-nua (Procnias nudicollis) e a seriema-de-pernas-vermelhas (Cariama cristata), foram identificadas como possíveis recordistas mundiais em intensidade sonora, com picos superiores a 120 decibéis. O estudo, publicado no final de setembro na revista Evolution, também destaca que a araponga-da-amazônia chega a registrar 125,2 decibéis, tornando-se a mais barulhenta do planeta.
A pesquisa, conduzida pelos pesquisadores Jeff Podos e João Menezes, teve como objetivo não apenas identificar as espécies mais vociferantes, mas também compreender quais características físicas possibilitam essa capacidade sonora extrema. Para isso, os cientistas mediram a intensidade das vocalizações de 123 espécies de aves em diferentes regiões do Brasil e nos arredores de Amherst, Massachusetts. Notavelmente, 113 dessas espécies nunca haviam tido seus volumes de canto registrados anteriormente, o que amplia significativamente o conhecimento sobre a diversidade sonora do mundo animal.
A medição da intensidade sonora na natureza apresentou desafios, uma vez que o volume percebido depende da distância entre a ave e o observador. Para contornar essa dificuldade, os pesquisadores utilizaram uma combinação de medidores portáteis de som de alta precisão e telêmetros a laser, equipamentos comumente utilizados por jogadores de golfe para calcular distâncias. Assim, foi possível registrar a força do canto das aves e a distância até elas, em condições de campo, sem a necessidade de captura ou transporte para laboratórios.
Os resultados mostraram uma diferença de até 58 decibéis entre as vocalizações mais fracas e as mais intensas. Enquanto um beija-flor estudado emitiu sons semelhantes ao volume de uma conversa normal, aproximadamente 64 decibéis, as espécies brasileiras mencionadas ultrapassaram os 120 decibéis. A araponga-da-amazônia, por sua vez, atingiu a marca impressionante de 125,2 decibéis, consolidando seu título de ave mais barulhenta do mundo.
Quanto às razões por trás dessa capacidade sonora extrema, os pesquisadores identificaram características físicas comuns às aves mais vociferantes. Entre elas, corpos maiores, músculos mais desenvolvidos e bicos com aberturas mais largas. Segundo os autores, músculos volumosos podem facilitar maior compressão do ar durante a vocalização, ampliando o volume do som, enquanto bicos mais largos atuariam como amplificadores, semelhantes a instrumentos musicais de abertura ampla, como trompetes.
Apesar de avançar na compreensão de como essas aves produzem sons tão altos, o estudo não esclarece completamente por que essa capacidade evoluiu. João Menezes e Jeff Podos levantaram hipóteses relacionadas à adaptação ao ambiente e ao comportamento social, incluindo a possibilidade de que aves com mobilidade reduzida, como as que apresentam menor habilidade de voo, compensariam essa limitação com vocalizações mais potentes; que espécies que vivem em florestas densas dependem de sons altos para comunicação eficaz sem contato visual; e que aves poligâmicas utilizariam cantos capazes de alcançar parceiros a maiores distâncias.
Contudo, os resultados não forneceram evidências conclusivas para essas hipóteses, indicando que as razões evolutivas ainda precisam ser investigadas mais profundamente. Os pesquisadores destacam a necessidade de estudos adicionais envolvendo uma gama maior de espécies para compreender as funções ecológicas e evolutivas da intensidade vocal. Assim, embora o estudo tenha revelado importantes detalhes sobre os limites físicos da vocalização animal, ele também abriu caminho para futuras investigações sobre os fatores que moldam a comunicação sonora no mundo animal.








