O buraco na camada de ozônio na região da Antártida atingiu, em setembro de 2026, uma área superior a 27 milhões de quilômetros quadrados, configurando-se como uma das maiores extensões já registradas para esse período do ano. Essa dimensão excepcional foi impulsionada por uma combinação de temperaturas extremamente baixas na estratosfera e um vórtice polar intenso, formado por fortes correntes de ar que circulam em torno do continente congelado durante o inverno antártico.
Apesar do tamanho expressivo, especialistas alertam que esse episódio não representa uma reversão no processo de recuperação da camada de ozônio. Pesquisadores da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, e do Instituto Nacional de Pesquisa da Água e da Atmosfera, também na Nova Zelândia, já haviam sinalizado, meses antes, a possibilidade de uma temporada particularmente severa. Os dados indicam que a área começou a crescer mais cedo do que a média anual, ainda em agosto, e teve uma rápida expansão no início de setembro, atingindo 27,4 milhões de km².
O fenômeno, conhecido popularmente como “buraco na camada de ozônio”, não corresponde a uma abertura literal na atmosfera, mas sim a uma região onde há uma redução significativa na concentração de ozônio. Esse processo ocorre principalmente durante a primavera na Antártida. Durante o inverno, forma-se sobre a região um grande sistema de ventos denominado vórtice polar estratosférico, que, quando permanece muito frio e estável, cria condições favoráveis à destruição do ozônio. As baixas temperaturas favorecem a formação de nuvens estratosféricas polares, onde ocorrem reações químicas que transformam compostos atmosféricos em substâncias capazes de destruir moléculas de ozônio.
A dimensão e a duração do buraco, entretanto, dependem não apenas da química atmosférica, mas também da dinâmica dos ventos. Um vórtice mais forte e mais frio consegue manter o ar preso sobre a Antártida por mais tempo, prolongando o processo de destruição do ozônio. Apesar de a área atingida em setembro ter sido excepcionalmente extensa, os dados indicam que o episódio de 2026 não foi tão profundo quanto alguns dos maiores registros históricos. Ou seja, a superfície afetada foi grande, mas a redução na concentração de ozônio não foi proporcionalmente severa em toda a área. Assim, a quantidade total de ozônio “faltando” foi menor do que em episódios mais severos do passado, reforçando que a extensão do buraco é apenas um dos critérios utilizados pelos cientistas para avaliar sua intensidade.
Previsões feitas meses antes apontaram que 2026 poderia apresentar uma temporada especialmente intensa. Observações por satélite, realizadas em maio, indicaram alterações na composição e na circulação atmosférica, sugerindo que as condições favoreciam a formação de um vórtice polar mais frio e resistente. Essas previsões se confirmaram ao longo do período, e os pesquisadores afirmam, em artigo publicado nesta quinta-feira (24) no portal The Conversation, que as observações de setembro corroboraram as alertas iniciais. Caso as condições atmosféricas permaneçam semelhantes, espera-se que o buraco na camada de ozônio continue significativo durante os meses de outubro e novembro.
Segundo os especialistas, há uma expectativa de que 2026 esteja entre os dez episódios mais graves de destruição de ozônio já registrados na história. Contudo, essa previsão depende da evolução da circulação atmosférica nas próximas semanas. O episódio ocorre após uma série de buracos extensos e persistentes observados entre 2020 e 2023, episódios esses associados a fatores naturais e a eventos específicos, como os grandes incêndios florestais na Austrália em 2019 e 2020, além da liberação de aerossóis provenientes da erupção do vulcão La Soufrière, no Caribe, em 2021. Em 2022, a erupção do vulcão submarino Hunga Tonga–Hunga Haʻapai também teve impacto na atmosfera, contribuindo para o início antecipado da temporada de destruição do ozônio em 2023.
Embora esses eventos não tenham anulado os avanços obtidos com a redução das substâncias químicas destruidoras do ozônio, eles evidenciam que fatores naturais e mudanças na circulação atmosférica ainda podem gerar variações significativas de um ano para o outro. As consequências do buraco de ozônio não se limitam à região polar, podendo influenciar a circulação atmosférica do Hemisfério Sul, alterando padrões de vento, temperatura e precipitação. Um exemplo é o padrão SAM (Modo Anular Sul), que regula a posição e a intensidade dos ventos ao redor da Antártida, podendo, dependendo de sua fase, favorecer condições mais quentes e úmidas na Nova Zelândia e aumentar as chuvas no sudeste da Austrália.
A expectativa de recuperação plena da camada de ozônio permanece, com projeções indicando que esse processo deve se completar antes de 2090. No entanto, episódios recentes mais frequentes de buracos persistentes e as mudanças na dinâmica atmosférica levantam questionamentos sobre o ritmo dessa recuperação. A análise publicada no The Conversation reforça que, apesar do episódio de 2026 ter sido excepcional em sua extensão, ele não indica o abandono do progresso na eliminação das substâncias destruidoras do ozônio, cujo controle é resultado do Protocolo de Montreal, assinado em 1987. Desde então, os níveis desses compostos têm diminuído significativamente, sustentando a expectativa de uma recuperação gradual da camada de ozônio, mesmo diante de eventos naturais e alterações climáticas que podem influenciar sua dinâmica.









