Pesquisadores do Reino Unido criaram um dispositivo inovador, conhecido como “espantalho marinho”, que tem potencial para diminuir significativamente a captura acidental de aves marinhas em redes de pesca. Essa tecnologia, desenvolvida por cientistas da empresa Fishtek Marine em parceria com a organização de conservação RSPB, foi testada na costa da Cornualha ao longo de dois anos, resultando em uma redução de aproximadamente 66% no risco de duas espécies de aves mergulhadoras ficarem presas nas redes de emalhar.
A captura acidental de aves como o airo-comum (Uria aalge) e o airo-de-asa-branca (Alca torda) representa um grave problema ambiental. Estima-se que cerca de 95 mil aves marinhas mergulhadoras morram anualmente após ficarem presas em redes de emalhar ao longo das costas europeias. Para enfrentar essa questão, os pesquisadores desenvolveram a Looming Eye Buoy (LEB), uma boia flutuante que funciona como um espantalho aquático. Com uma cabeça giratória que exibe olhos animados, a LEB tem como objetivo assustar as aves e evitar que elas mergulhem perto das redes de pesca, reduzindo assim a probabilidade de captura acidental.
Durante os testes, realizados em parceria com dez pescadores locais da Cornualha, os dispositivos foram acompanhados por câmeras instaladas nos barcos, permitindo a análise do impacto das estratégias. Além da boia, os cientistas também utilizaram uma pipa comercial com aparência de ave de rapina, uma ferramenta tradicionalmente empregada para assustar pássaros. Os resultados indicaram que ambas as estratégias foram eficazes: a utilização das boias LEB resultou em uma redução de 59% nas capturas acidentais, enquanto o uso das pipas alcançou uma diminuição de 71%.
Os dados coletados também permitiram aos pesquisadores identificar os períodos e áreas de maior risco, possibilitando a aplicação mais eficiente das tecnologias. A maior incidência de captura de aves na região ocorreu durante o inverno, concentrando-se em locais específicos. Dessa forma, os dispositivos podem ser utilizados de forma direcionada, aumentando a eficácia sem prejudicar a atividade pesqueira.
Segundo Tom Horton, autor principal do estudo e pesquisador da Universidade de Exeter, os resultados representam uma das evidências mais sólidas de que medidas dissuasoras simples podem contribuir significativamente para a redução da captura acidental de aves marinhas em pescarias com redes de emalhar. Um dos objetivos centrais do projeto foi desenvolver soluções que não comprometam a atividade pesqueira, mantendo a simplicidade e resistência necessárias para o uso em ambientes marítimos.
A busca por tecnologias que minimizem os impactos ambientais da pesca vem avançando com sucesso em diferentes regiões do mundo. Tecnologias similares, como as chamadas “linhas espanta-aves”, já demonstraram eficácia de mais de 90% na redução de captura acidental. Na Namíbia, por exemplo, essas linhas reduziram em 98% as capturas em barcos de pesca com palangre, enquanto na África do Sul, arrastões de pesca apresentaram uma diminuição de 95% no problema.
Os pesquisadores continuam trabalhando em parceria com pescadores, a RSPB e a Universidade de Exeter para aprimorar esses dispositivos, buscando soluções que possam ser amplamente adotadas. Micky Bacon, pescador da Cornualha que participou dos testes, destacou a importância da colaboração com a comunidade pesqueira: “O mar é o meu local de trabalho e acho importante participarmos de projetos que possam afetar a nossa forma de trabalhar e ajudar a melhorar o ambiente”, afirmou.
A iniciativa representa um avanço na busca por equilibrar a atividade pesqueira com a conservação da biodiversidade marinha, oferecendo alternativas viáveis para reduzir a mortalidade de aves que, até então, eram vítimas frequentes das redes de emalhar na costa europeia.







