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Cientistas utilizam narvais equipados com sensores para obter dados inéditos sobre o ambiente na Groenlândia

28/08/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:3 minutos de leitura
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Cientistas estão empregando narvais, mamíferos marinhos adaptados às águas geladas do Ártico, como instrumentos de monitoramento ambiental na costa leste da Groenlândia, especificamente na região de Scoresby Sound, o maior sistema de fiordes do mundo. Seis desses animais foram equipados com sensores que coletam dados sobre temperatura, salinidade e profundidade das águas, permitindo uma compreensão mais aprofundada de uma das áreas menos exploradas do oceano Atlântico, devido às dificuldades logísticas de navegação na região.

Essa iniciativa representa uma inovação na pesquisa oceonográfica, uma vez que os navios de pesquisa enfrentam obstáculos para alcançar locais remotos no Polo Norte. Os sensores instalados nos narvais funcionam como plataformas móveis de coleta de dados, pois, ao realizarem seus deslocamentos naturais, registram informações ambientais essenciais. Essa estratégia possibilita o acesso a áreas de difícil alcance por métodos tradicionais, além de reduzir custos e dificuldades operacionais.

A região estudada apresenta uma mistura complexa de massas de água. Uma delas é a Água Polar, fria e originária do Ártico, enquanto a outra é a Água Intermediária Atlântica, mais quente e salgada, proveniente do Oceano Atlântico. A presença de vestígios de água do Atlântico a aproximadamente 300 km da costa revelou-se uma descoberta inédita, demonstrando que a água quente consegue penetrar profundamente nos fiordes, chegando a bacias situadas em frente às geleiras, a centenas de quilômetros de distância do oceano aberto.

De acordo com Mads Peter Heide-Jørgensen, professor do Instituto de Recursos Naturais da Groenlândia e responsável pelo estudo, essa é uma das primeiras vezes que medições precisas dessas regiões remotas são obtidas por meio de animais equipados com sensores. Ele destacou a importância dessa abordagem inovadora para ampliar o entendimento sobre o sistema oceânico local e suas dinâmicas.

As medições feitas pelos narvais foram combinadas com dados históricos do Banco de Dados Mundial dos Oceanos (WOD), permitindo a elaboração de um modelo que relaciona temperatura, salinidade e profundidade. Os resultados indicaram uma mudança significativa na composição das águas do fiorde: a camada de água atlântica mais quente e salina tornou-se mais espessa, enquanto a camada de água polar mais fria e menos salina diminuiu.

Mais importante ainda, os pesquisadores identificaram que a água quente do Atlântico consegue alcançar as profundidades das bacias próximas às geleiras, contribuindo para o derretimento das mesmas. Heide-Jørgensen ressaltou que essa circulação de água quente acelera o processo de perda de gelo na região, um fenômeno de grande preocupação no contexto das mudanças climáticas globais.

Os resultados do estudo têm implicações que vão além do entendimento local, podendo aprimorar os modelos climáticos utilizados para prever o impacto do derretimento das geleiras na Groenlândia. A liberação de grandes volumes de água doce no oceano, decorrente do derretimento do gelo, pode alterar a circulação oceânica e influenciar padrões climáticos em escala global. Susanne Ditlevsen, professora da Universidade de Copenhague e coautora do estudo, destacou a importância de aperfeiçoar esses modelos, uma vez que a Groenlândia possui uma quantidade de gelo que representa uma das maiores reservas do planeta, sendo fundamental para compreender as futuras mudanças climáticas.

Este método inovador de coleta de dados por meio de mamíferos marinhos equipados com sensores abre novas possibilidades para a pesquisa oceonográfica, especialmente em regiões de difícil acesso, contribuindo para uma compreensão mais precisa dos processos ambientais e climáticos que afetam o Ártico e o planeta como um todo.

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