Uma tendência de redução do uso de smartphones e a adoção de dispositivos mais simples, conhecidos como “dumbphones”, vem ganhando força em diferentes faixas etárias e contextos sociais. Essa movimentação, que reflete uma tentativa de estabelecer maior controle sobre o tempo dedicado às telas, foi confirmada por um estudo recente publicado na revista científica M/C. A pesquisa aponta que, apesar do avanço tecnológico, um número crescente de indivíduos busca maneiras de se desconectar do uso constante de smartphones, adotando estratégias que variam desde restringir o acesso aos aparelhos até a preferência por produtos retrô, como telefones com cabos espirais, que remetem aos antigos telefones fixos.
O movimento de afastamento dos dispositivos móveis não se limita aos jovens ou a uma faixa etária específica. No Brasil, por exemplo, medidas legais já foram implementadas para limitar o uso de celulares por menores de idade, especialmente em ambientes escolares, onde a proibição do uso de aparelhos é uma política adotada pelo governo com o objetivo de reduzir distrações e promover maior foco no aprendizado. Essa iniciativa reflete uma preocupação crescente com os efeitos do uso excessivo de tecnologia na saúde mental e na concentração dos estudantes.
Segundo a pesquisadora Jess Hardley, da Universidade Edith Cowan, na Austrália, a intenção de se distanciar fisicamente dos smartphones tem se mostrado uma estratégia comum entre os usuários. Sua pesquisa, que analisou mais de uma década de dados sobre o comportamento de usuários de smartphones, revelou que muitas pessoas estão procurando formas de criar uma barreira física entre elas e seus aparelhos. Um exemplo citado por Hardley foi o de uma participante que, ao perceber que os jogos no celular estavam se tornando uma obsessão prejudicial à sua concentração no trabalho, chegou a trancar o aparelho em uma gaveta, dificultando seu acesso.
Para Hardley, não basta apenas a vontade de reduzir o uso; muitas pessoas tomam ações concretas, como colocar o telefone em outro cômodo, trancá-lo ou criar obstáculos que dificultem o acesso ao dispositivo. Essas atitudes refletem um movimento consciente de buscar maior controle sobre o tempo e a atenção, diante de uma rotina cada vez mais marcada pela presença constante das telas.
Além dessas ações, o estudo identificou uma crescente preferência por eventos e ambientes livres de celulares. Entre as estratégias adotadas estão restrições de aplicativos, configurações de tela que tornam o telefone menos atraente e o uso de acessórios retrô, como bolsas com trava para celulares, frequentemente utilizados em shows e outros eventos públicos. A popularidade de iniciativas como “prisões de celular” — locais onde os aparelhos são recolhidos temporariamente — reforça essa tendência de repensar a relação com a tecnologia móvel.
Para Jess Hardley, entender por que adultos estão voluntariamente buscando formas de se afastar dos smartphones pode contribuir para uma compreensão mais ampla das mudanças na percepção social sobre o uso da tecnologia. A adoção de dispositivos mais simples e a participação em eventos sem celulares indicam uma reflexão crescente sobre o impacto do uso excessivo de telas na vida cotidiana. Essa mudança de comportamento sugere uma possível transformação na maneira como a sociedade enxerga a relação com a tecnologia, priorizando o bem-estar e o controle sobre o tempo de uso.









