Pesquisadores desenvolveram uma ferramenta inovadora capaz de estimar a idade de uma pessoa com base na análise de sua fala, revelando possíveis sinais de envelhecimento acelerado. O estudo, divulgado nesta quarta-feira (30) na revista científica Science Advances, demonstra que a maneira como uma pessoa fala pode refletir processos biológicos relacionados ao envelhecimento, além de estar associada a indicadores de saúde cerebral e física.
A pesquisa, conduzida por uma equipe internacional, criou um “relógio da fala” que utiliza modelos de machine learning para avaliar diversas características da voz, incluindo velocidade, pausas, tom, vocabulário, conteúdo emocional e organização das palavras. Para validar a ferramenta, foram analisados dados de 2.928 adultos de fala espanhola provenientes de cinco países latino-americanos: Argentina, Chile, Colômbia, México e Peru. Os participantes incluíam indivíduos saudáveis e aqueles com comprometimento cognitivo leve.
Os resultados mostraram que a discrepância entre a idade real e a estimada pela ferramenta correlaciona-se com sinais de envelhecimento acelerado. Quanto maior essa diferença, mais evidências de envelhecimento biológico foram observadas, tanto por meio de exames de neuroimagem estrutural e funcional quanto por três relógios epigenéticos baseados na metilação do DNA. Esses relógios avaliam a idade biológica do organismo a partir de alterações químicas no DNA que ocorrem ao longo do tempo.
A associação entre a idade da fala e o envelhecimento biológico sugere que uma voz que aparenta ser mais velha pode carregar informações além da passagem do tempo, incluindo processos biológicos que acompanham o envelhecimento. Além disso, a análise revelou que uma maior discrepância na idade da fala está relacionada ao declínio cognitivo, afetando funções como memória, habilidades executivas e desempenho em tarefas que não dependem diretamente da linguagem. Esses sinais também foram mais evidentes em participantes com doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e outras formas de demência frontotemporal.
No caso da doença de Alzheimer, a maior idade da fala também se associou a níveis mais elevados do biomarcador p-tau217 no sangue, um indicador relacionado à patologia. Essa medida biomolecular refletiu diferenças no funcionamento clínico dos indivíduos, reforçando a hipótese de que a análise da fala pode oferecer insights sobre o estado de saúde cerebral. Entretanto, os autores do estudo ressaltam que a ferramenta não deve ser usada como um método diagnóstico definitivo, pois o estudo foi realizado em um período específico e não acompanhou a evolução dos participantes ao longo do tempo para determinar se a discrepância na idade da fala preditoria de futuros declínios cognitivos.
Outro aspecto relevante do estudo é a relação entre o envelhecimento acelerado da fala e fatores sociais acumulados ao longo da vida, como nível educacional, condição financeira, acesso a serviços de saúde e experiências na infância. Participantes com maior exposição a condições adversas apresentaram maior discrepância entre a idade real e a estimada pela análise vocal, indicando que o contexto social também influencia o envelhecimento biológico refletido na fala.
Segundo Agustin Ibanez, do Trinity College Dublin, na Irlanda, a voz contém informações que tradicionalmente eram obtidas por exames mais invasivos ou complexos, como ressonâncias magnéticas ou análises moleculares. A descoberta é particularmente relevante por ocorrer em uma característica cotidiana, que pode ser registrada de forma simples e repetida, facilitando o monitoramento do envelhecimento de forma acessível.
Embora o “relógio da fala” ainda esteja em fase de pesquisa, sua aplicação potencial é significativa, especialmente considerando a diversidade de populações, incluindo regiões como a América Latina, frequentemente sub-representadas em estudos sobre envelhecimento e demência. Se confirmadas em estudos futuros de longo prazo, essas análises podem transformar a fala em uma ferramenta acessível para acompanhar mudanças relacionadas ao envelhecimento e à saúde cerebral, oferecendo uma janela para o estado interno do organismo por meio de um comportamento cotidiano.









