Um estudo realizado na Finlândia e divulgado na revista Pediatric Exercise Science traz uma perspectiva inovadora sobre a relação entre o tempo de exposição às telas durante a infância e o desenvolvimento cognitivo na adolescência. Contrariando a percepção comum de que o uso excessivo de dispositivos eletrônicos prejudica o crescimento cerebral, a pesquisa aponta que crianças e adolescentes que passaram mais tempo diante de celulares, tablets, computadores e televisores apresentaram, ao atingirem cerca de 15 anos de idade, um desempenho superior em testes de processamento cognitivo.
Realizado ao longo de oito anos, o estudo faz parte do projeto PANIC (Physical Activity, Nutrition and Child Health), que acompanha a relação entre atividade física, nutrição e saúde infantil na Finlândia. A pesquisa envolveu 260 crianças, sendo 124 meninas e 136 meninos, cujo desenvolvimento foi monitorado desde a infância até a adolescência. Ao final do período, a média de idade dos participantes era de aproximadamente 15,8 anos. Os pesquisadores analisaram fatores como comportamento sedentário, atividade física e tempo de uso de telas, buscando compreender como esses elementos influenciam o funcionamento cognitivo posteriormente.
Para avaliar habilidades como atenção, memória de trabalho e aprendizagem, os adolescentes realizaram testes utilizando a bateria CogState, reconhecida por sua precisão na mensuração de funções cognitivas. Além disso, a atividade física e o comportamento sedentário foram avaliados tanto por questionários quanto por dispositivos que monitoravam frequência cardíaca e movimento, fornecendo dados objetivos sobre o nível de atividade dos participantes.
O resultado mais destacado da pesquisa foi a associação entre maior tempo de uso de telas ao longo da infância e melhor desempenho em testes cognitivos na fase adolescente. Este achado sugere que as atividades realizadas durante o tempo de tela podem ser mais relevantes do que a quantidade de horas em si. Segundo os autores, atividades digitais que envolvem aprendizagem, criatividade, resolução de problemas e engajamento mental podem contribuir positivamente para o desenvolvimento cognitivo, especialmente quando realizadas de forma intencional e com propósito educativo.
Petri Jalanko, um dos principais pesquisadores envolvidos, destacou que o tempo de tela não deve ser encarado apenas como prejudicial. Em comunicado, ele afirmou que o uso de dispositivos digitais pode ser benéfico se estimular o pensamento ativo e a resolução de problemas, reforçando a importância de orientar pais e professores a promoverem atividades que envolvam criatividade e aprendizagem durante o uso de tecnologia.
A pesquisa também abordou a relação entre atividade física e cognição, revelando resultados variados. Entre as meninas, maior prática de atividades físicas de baixa intensidade desde a infância esteve relacionada a uma melhora na memória de trabalho na adolescência. Entre os meninos, a participação frequente em atividades físicas supervisionadas também se associou a um melhor desempenho cognitivo. Por outro lado, níveis mais baixos de atividade física não supervisionada, relatados pelos próprios participantes, também mostraram uma ligação com melhor processamento cognitivo, um resultado inesperado que indica a complexidade da relação entre exercício e desenvolvimento cerebral.
Quando os pesquisadores utilizaram sensores para medir movimento e frequência cardíaca, não houve uma associação significativa com o desempenho cognitivo. Uma possível explicação é que esses dispositivos não conseguem distinguir o tipo de atividade que a criança realiza, podendo registrar diferentes situações de forma semelhante — seja estudando, jogando videogame ou assistindo vídeos.
Apesar do resultado surpreendente, os autores reforçam que o estudo não demonstra causalidade. Ou seja, não é possível afirmar que mais tempo de tela causa melhorias cognitivas, mas apenas que há uma associação entre esses fatores. Outros aspectos, como características cognitivas pré-existentes, acesso a recursos educacionais ou comportamentos relacionados, podem influenciar os resultados.
Por fim, os pesquisadores ressaltam que o estudo não define um número ideal de horas de uso de telas, mas alerta contra interpretações simplistas. O foco deve estar na qualidade e no conteúdo das atividades realizadas durante o tempo digital, bem como na manutenção de um equilíbrio com a prática de atividades físicas. A recomendação é que pais e educadores incentivem o uso de tecnologias de forma que promovam aprendizagem, criatividade e resolução de problemas, ao mesmo tempo em que garantam o desenvolvimento de habilidades físicas e cognitivas de forma equilibrada.







