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Estudo de sepultura de “vampira” na Polônia revela detalhes sobre sua origem e crenças da época

26/08/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:4 minutos de leitura
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Em 2022, arqueólogos descobriram uma sepultura de aproximadamente 400 anos de idade próxima à vila de Pień, localizada no norte da Polônia. A escavação revelou um esqueleto de uma jovem entre 17 e 19 anos, com uma disposição incomum de objetos que indicam práticas de contenção e proteção contra supostas ameaças espirituais. A investigação, publicada em 30 de julho na revista Journal of Archaeological Science: Reports, combina técnicas de arqueologia, análise de DNA antigo e estudos de isótopos para compreender quem foi essa jovem, de onde veio e por que sua comunidade teria tomado medidas extremas para impedir seu retorno após a morte.

A descoberta chamou atenção internacional, especialmente após a participação no documentário “Campo de Vampiros” de 2024, que buscou reconstruir seu rosto e entender seu contexto social. Os pesquisadores identificaram a jovem como Zosia, cuja morte ocorreu entre 1620 e 1674, e que, além de seu esqueleto, apresentava sinais de uma sepultura especialmente preparada para evitar que ela retornasse dos mortos.

A posição do esqueleto e os objetos encontrados sugerem uma preocupação com sua possível ressurreição. Uma foice de ferro foi colocada sobre seu pescoço, numa posição que, segundo os especialistas, permitiria que a lâmina decapitasse a jovem caso ela tentasse se levantar. Além disso, um cadeado triangular foi preso ao dedão do pé, funcionando como uma forma de mantê-la ligada à sepultura. Os arqueólogos determinaram que o cadeado foi colocado na sepultura desde o momento do enterro, enquanto a foice foi adicionada posteriormente, antes da decomposição completa do corpo. Essa sequência indica uma preocupação maior com a contenção da jovem, refletindo o medo de que ela pudesse retornar à vida.

Outra evidência de práticas supersticiosas foi a presença de uma descoloração esverdeada no palato de Zosia, atribuída à colocação de um objeto contendo cobre e ouro, possivelmente dentro de sua boca ou nariz após a morte. Como a composição não corresponde a moedas conhecidas, os pesquisadores sugerem que tal objeto poderia fazer parte de rituais destinados a afastar forças demoníacas ou espíritos malignos.

O cemitério onde Zosia foi sepultada também apresenta características que reforçam a hipótese de que o local era destinado a indivíduos considerados rejeitados ou desviantes pela sociedade da época. Composto por 101 sepulturas de aproximadamente quatro gerações do século XVII, o espaço ficava afastado da vila, em uma encosta próxima a um cruzamento, longe de igrejas ou capelas. Diversas dessas sepulturas apresentavam características incomuns, como enterros de bruços, esqueletos em posições semelhantes às de crucificação e sepulturas com pedras ao redor do crânio. Outros indivíduos foram enterrados com objetos como foices e cadeados, reforçando a hipótese de que o local funcionava como um espaço de sepultamento para pessoas que, por diferentes motivos, eram consideradas marginalizadas ou perigosas.

A localização do cemitério sugere que ele atendia a grupos como suicidas, hereges, forasteiros sem cidadania local, mendigos ou vítimas de mortes trágicas. A ausência de objetos religiosos, como cruzes e medalhas, indica uma provável origem protestante do espaço, em contraste com os sepultamentos católicos tradicionais da época.

Para entender a origem de Zosia, os pesquisadores analisaram seu DNA mitocondrial e os isótopos presentes em seus restos mortais. Os resultados indicam que ela provavelmente passou sua infância na região de Pień, com sinais químicos semelhantes aos de outros enterrados no mesmo local. Quanto à linhagem materna, o DNA mitocondrial sugere possíveis ligações com populações escandinavas, embora essa informação não seja conclusiva para determinar sua origem geográfica exata, uma vez que linhagens semelhantes podem ocorrer em diferentes regiões da Europa. Além disso, a análise do DNA nuclear, que poderia oferecer detalhes mais precisos, não foi possível devido à degradação dos materiais genéticos.

Apesar de sua possível origem de uma família abastada, evidências encontradas próximas ao crânio, como vestígios de tecido de seda com fios de ouro e prata, indicam que Zosia tinha acesso a vestimentas de alta qualidade. Essa descoberta é relevante, pois até mesmo monarcas europeus do século XVII, como Sigismundo III Vasa e Constança de Habsburgo, não eram enterrados com adornos dessa natureza, sugerindo que ela pertencia a uma linhagem rica ou de alta posição social.

Por fim, a ausência de sinais de violência ou doenças que pudessem explicar sua morte reforça a hipótese de que Zosia morreu por causas naturais. Estudos anteriores sugeriram a possibilidade de ela ter um hemangioma, um tumor benigno que poderia causar dor ou deformidade no esterno, mas a análise mais recente não encontrou evidências de trauma ou patologia que expliquem sua morte.

Para os pesquisadores, a postura de Zosia e as precauções tomadas na sua sepultura refletem crenças da época relacionadas ao medo de que ela pudesse retornar dos mortos, uma preocupação comum em regiões da Europa Central. O uso de objetos como foices e cadeados para impedir sua ressurreição é interpretado como uma tentativa de manter a jovem, apesar de sua origem aparentemente nobre, sob controle absoluto. Os estudos continuam, com o objetivo de entender o contexto social e religioso que levou a essas práticas, além de investigar outros sepultamentos semelhantes no mesmo cemitério, buscando compreender as razões pelas quais alguns indivíduos eram submetidos a rituais de contenção tão rigorosos.

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