Pesquisadores descobriram que indivíduos que atingem ou ultrapassam os 110 anos de idade, conhecidos como supercentenários, apresentam uma quantidade significativamente maior de um tipo raro de célula do sistema imunológico. A pesquisa, publicada nesta quarta-feira (19) na revista científica Cell Reports, revela que os linfócitos T citotóxicos CD4, também chamados de CD4 CTLs, tornam-se mais abundantes com o avanço da idade, multiplicando-se por meio de um processo conhecido como expansão clonal. Essas células desempenham um papel fundamental na defesa do organismo, sendo capazes de eliminar células infectadas, células envolvidas em processos inflamatórios e, em certas circunstâncias, células tumorais. Contudo, os autores do estudo alertam que a maior quantidade de CD4 CTLs não pode ser interpretada como uma causa direta de longevidade extrema ou uma prevenção definitiva contra o câncer.
Segundo o primeiro autor do estudo, o professor Kosuke Hashimoto, da Universidade de Osaka, no Japão, o envelhecimento do sistema imunológico não deve ser visto apenas como um declínio funcional. “A expansão seletiva de certas células T sugere que, mesmo em idades avançadas, o sistema imunológico pode continuar a se adaptar aos desafios relacionados ao envelhecimento”, afirmou em comunicado à imprensa. A pesquisa destaca que os linfócitos T citotóxicos CD4 representam uma população relativamente rara dentro do sistema imunológico, o que torna sua associação com indivíduos de idade avançada particularmente relevante.
Para compreender esse fenômeno, os pesquisadores analisaram amostras de sangue de 28 pessoas divididas em três grupos etários: de 70 a 99 anos, de 100 a 109 anos e de 110 anos ou mais. Os resultados mostraram que a proporção dessas células aumentou progressivamente com a idade, passando de uma mediana de 4% no grupo mais jovem, para 9,6% entre os centenários e chegando a 17,6% nos supercentenários. Para reforçar esses achados, os cientistas também utilizaram dados de aproximadamente 1.500 indivíduos de diferentes idades, confirmando a tendência de crescimento na quantidade de CD4 CTLs com o envelhecimento.
Um aspecto importante do estudo foi a análise da clonagem dessas células. Quando uma célula T reconhece um alvo potencialmente ameaçador, ela pode se multiplicar, formando clones idênticos que reforçam a resposta imunológica. Os pesquisadores observaram que o clone mais comum representava, em média, um terço das CD4 CTLs analisadas, chegando a 53,8% em uma amostra de um centenário. Essa expansão clonal sugere que essas células não estão apenas presentes em maior quantidade, mas também participam ativamente de uma resposta adaptativa do sistema imunológico a antígenos persistentes, que podem estar relacionados a infecções, alterações celulares ou estímulos diversos.
A equipe também comparou as sequências dos receptores dessas células com bancos de dados públicos e identificou que quase três dezenas dessas sequências estavam associadas a tumores de pulmão, mama e fígado. Como nenhum dos participantes com mais de 100 anos apresentava diagnóstico de câncer, os autores levantam a hipótese de que essas células podem refletir respostas imunológicas precoces, atuando contra alterações que ainda não evoluíram para doenças detectáveis. Essa possibilidade reforça a ideia de que o envelhecimento está associado ao acúmulo de células anormais, como células senescentes e células cancerosas, e que o sistema imunológico pode, de alguma forma, se adaptar para combater esses desafios.
No entanto, os autores destacam que os resultados devem ser interpretados com cautela. O estudo analisou principalmente células T presentes na circulação sanguínea e ainda não há evidências de que a quantidade elevada de CD4 CTLs seja a causa da longevidade extrema. Pesquisas futuras serão necessárias para entender melhor a função dessas células, seus alvos específicos e seu comportamento nos tecidos do organismo, além de investigar por que algumas pessoas mais jovens também apresentam concentrações elevadas dessas células.
De modo geral, os pesquisadores acreditam que a capacidade de adaptação imunológica, evidenciada pelo aumento dessas células em indivíduos de idade avançada, pode contribuir para explicar a longevidade excepcional observada em alguns casos. A continuidade dessas investigações poderá oferecer insights importantes sobre o papel do sistema imunológico na manutenção da saúde e na prevenção de doenças relacionadas ao envelhecimento.









