Um estudo internacional sugere que o aumento das temperaturas pode intensificar as interações sexuais entre os besouros-enterradores machos (Nicrophorus vespilloides). A pesquisa, que ainda será publicada em uma revista científica, aponta que o estresse térmico resultante do calor afeta a química que os insetos utilizam para reconhecer o sexo de seus parceiros.
Os besouros se comunicam por meio de uma camada externa composta principalmente por hidrocarbonetos cuticulares (CHCs, na sigla em inglês). Essa camada não apenas facilita a identificação do sexo, mas também desempenha um papel crucial na impermeabilização da cutícula, evitando a desidratação. A pesquisa liderada pela cientista Solène Morelle, da Universidade de St Andrews, no Reino Unido, investigou como o estresse térmico altera os CHCs e quais as possíveis consequências para o comportamento e a reprodução dos insetos. Os resultados preliminares foram apresentados durante a conferência da Sociedade de Biologia Experimental, realizada em Florença, na Itália, nesta semana.
Morelle afirma que as evidências indicam uma relação de compromisso entre as funções de sinalização e impermeabilização dos hidrocarbonetos cuticulares. “As alterações induzidas pelo calor nos perfis de CHCs podem modificar os resultados comportamentais e reprodutivos dos insetos”, explicou a pesquisadora em um comunicado.
A comunidade científica já reconheceu que as mudanças climáticas têm provocado uma série de efeitos sobre a fauna, especialmente em animais de sangue frio, como os besouros. Entre os comportamentos mais afetados estão os sociais e reprodutivos. Para aprofundar a compreensão desses impactos, Morelle conduziu experimentos com besouros-enterradores machos, buscando entender como o estresse térmico poderia influenciar o comportamento entre indivíduos do mesmo sexo, especificamente em relação ao acasalamento.
A escolha da espécie se deu pelo fato de que os besouros-enterradores utilizam extensivamente a comunicação química para cuidar, alimentar e proteger seus parentes. Nos experimentos, dois grupos de machos foram mantidos em temperaturas diferentes por três dias: um grupo a 20ºC e outro a 26ºC. Os resultados mostraram um aumento nas interações sexuais entre os machos sob estresse térmico, embora mesmo em condições normais de temperatura, já houvesse uma relação entre eles. “Fiquei surpresa ao descobrir o quanto os besouros se montavam entre si, mesmo em condições normais”, comentou Solène.
Embora os acasalamentos entre indivíduos do mesmo sexo possam ser considerados um desperdício de energia, Morelle sugere que a detecção de interações mesmo em condições amenas pode indicar que os impactos sobre o comportamento não são tão severos. “O custo fisiológico de uma única tentativa de acasalamento mal sucedida provavelmente não é muito alto por si só e não supera o risco de perder a chance de acasalar com uma fêmea”, afirmou a cientista.
Além disso, a comunicação por meio dos CHCs é fundamental para a identificação de intrusos rivais. Se essa função for comprometida pelo calor, as populações de besouros-enterradores podem enfrentar sérias consequências no futuro. Como próximo passo, Morelle pretende investigar mais detalhadamente se a interação sexual entre machos sob estresse térmico acarreta prejuízos reprodutivos significativos e de que maneira isso pode afetar a saúde dos insetos.








