Um novo estudo, realizado por pesquisadores da Universidade de Oslo, na Noruega, e publicado na revista Science em 1º de outubro, revela que os polos geográficos da Terra não permaneceram fixos ao longo de sua história. A pesquisa aponta que, ao longo de aproximadamente 320 milhões de anos, a camada externa do planeta passou por deslocamentos significativos, levando algumas regiões a serem submersas pelo mar enquanto outras emergiram, resultando em pelo menos quatro grandes deslocamentos dos polos terrestres nesse período.
A análise de registros geológicos antigos permitiu identificar esses eventos em quatro períodos distintos: entre 200 e 190 milhões de anos atrás, 150 e 140 milhões de anos atrás, 100 e 90 milhões de anos atrás, e, por fim, entre 30 e 20 milhões de anos atrás. Os resultados sugerem que o fenômeno, conhecido como deriva polar verdadeira, tende a ocorrer em fases de maior atividade geológica, podendo ter impactos consideráveis nas correntes oceânicas, no clima global e nos ecossistemas terrestres.
É importante distinguir esse deslocamento dos polos geográficos dos polos magnéticos da Terra, que se movimentam de maneira independente e podem até inverter suas posições ao longo do tempo. A deriva polar verdadeira envolve mudanças na orientação da crosta e do manto terrestres em relação ao eixo de rotação do planeta, influenciadas pela redistribuição de massa causada pelo deslocamento das placas tectônicas e deformações internas ao longo de milhões de anos.
Segundo o geocientista Mathew Domeier, autor do estudo, durante esses eventos, a crosta e o manto “deslizam efetivamente sobre o núcleo da Terra”, buscando um novo equilíbrio em relação ao eixo de rotação. Essa mudança de orientação, conhecida como deriva polar verdadeira, é um processo que ocorre lentamente, mas que, em certos períodos, pode provocar deslocamentos rápidos das posições dos continentes em relação às zonas climáticas.
Para reconstruir a posição dos polos no passado remoto, os pesquisadores utilizaram uma abordagem inovadora, analisando registros de regiões que foram periodicamente cobertas pelo mar ou expostas ao longo de milhões de anos. A estratégia baseou-se na hipótese de que, durante uma reorientação da camada sólida da Terra, a distribuição de terra e água sofre alterações perceptíveis, com áreas sendo inundadas ou emergindo. Essa mudança resultaria em um padrão global que os cientistas descrevem como semelhante a um trevo de quatro folhas, uma assinatura única que indica grandes deslocamentos dos polos.
A equipe também utilizou mapas geológicos e simulações que reconstruíram a distribuição de continentes e oceanos ao longo de diferentes épocas, confirmando a presença desse padrão em quatro períodos distintos. Essas evidências reforçam a hipótese de que a Terra passou por ciclos de deslocamento dos polos que tiveram impacto direto na configuração do planeta ao longo de sua história.
As consequências desses deslocamentos para o clima e os ecossistemas terrestres são profundas. A alteração na orientação dos continentes em relação ao eixo de rotação faz com que grandes áreas atravessem diferentes zonas climáticas, mesmo que a distância entre os continentes permaneça relativamente a mesma. Isso influencia as correntes oceânicas, responsáveis por distribuir calor ao redor do planeta, além de modificar as condições ambientais às quais plantas e animais estão adaptados. Como resultado, esses movimentos podem ter contribuído para reorganizações de ecossistemas ao longo de milhões de anos.
De acordo com a revista Scientific American, durante episódios de deriva polar verdadeira, os continentes podem se mover rapidamente através de zonas climáticas distintas, reforçando a conexão entre processos internos terrestres e mudanças climáticas de longo prazo, incluindo variações no nível do mar.
Apesar de esses eventos terem ocorrido em épocas remotas, evidências atuais indicam que o fenômeno ainda persiste. Medições por satélite revelam que o deslocamento dos polos geográficos continua, com uma taxa estimada de aproximadamente 10 centímetros por ano. A principal causa atribuída a esse movimento contemporâneo é o derretimento das calotas polares, que redistribui a massa na superfície da Terra, influenciando sua rotação. Contudo, ainda não se sabe se esse mecanismo foi responsável pelos deslocamentos do passado ou quais fatores desencadearam os quatro grandes eventos identificados na pesquisa.
Entender esses processos é fundamental para compreender como a dinâmica interna do planeta se relaciona com mudanças ambientais ao longo de sua história. Segundo Domeier, o próximo passo é investigar as razões específicas por trás desses deslocamentos em momentos distintos, o que pode oferecer insights importantes sobre a evolução do clima e da geografia terrestre ao longo de milhões de anos.








