Uma expedição científica realizada na região da Serra do Aracá, no norte do Amazonas, conseguiu coletar um grande número de espécies de fauna e flora, incluindo dezenas possivelmente inéditas na ciência. Apoiada por instituições brasileiras e internacionais, a missão teve duração de 19 dias e resultou em um extenso acervo que será utilizado para estudos futuros, contribuindo para o entendimento da biodiversidade de áreas de difícil acesso na Amazônia.
A equipe de pesquisadores, liderada pelo herpetólogo Miguel Trefaut, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), partiu do acampamento principal localizado a 1.260 metros de altitude, no topo de um tepui — formação montanhosa de topo plano típica da região do Escudo das Guianas. Desde o início, o objetivo era explorar a mata nebular, uma floresta úmida de altitude, frequentemente envolta em neblina e com alto grau de biodiversidade, que se estende por áreas de difícil acesso devido às condições geográficas adversas.
Durante a expedição, os pesquisadores enfrentaram dificuldades de locomoção devido ao relevo pedregoso e acidentado, que inicialmente impossibilitou o acesso às áreas mais internas da floresta. A solução foi a utilização de um drone, operado pelo fotógrafo André Dib, que permitiu mapear o relevo e identificar rotas de acesso à mata fechada, a cerca de 1.360 metros de altitude. Apesar da escassez de chuvas na maior parte do período, o que dificultou a atividade de anfíbios e répteis, a equipe conseguiu realizar coletas mais completas na vegetação de encosta.
No dia 30 de agosto, após uma semana de trabalho intenso, os pesquisadores partiram de helicóptero rumo a um acampamento secundário, batizado de Aracazinho, localizado a aproximadamente 25 quilômetros do acampamento principal. Este novo ponto apresentava uma paisagem distinta, com solos arenosos e vegetação mais seca, diferente do ambiente úmido e exuberante do platô principal. A mudança de ambiente revelou uma biodiversidade híbrida, com espécies de áreas baixas e de alta altitude coexistindo na mesma região, devido à sua maior proximidade com o nível do solo.
As coletas noturnas de anfíbios no Aracazinho confirmaram a mistura de comunidades de diferentes altitudes, incluindo espécies típicas de tepui, como um anfíbio do gênero Myersiohyla, e espécies de terras baixas, como os pererecas do gênero Osteocephalus. A presença de pequenos mamíferos também indicou que as comunidades faunísticas nessas áreas de relevo mais baixo diferem das do platô, com evidências de espécies distintas de roedores e marsupiais, além de famílias botânicas não encontradas no topo do tepui, como Apocynaceae e Ericaceae, sendo esta última comum em climas frios de altitude.
A chegada de chuvas intensas na manhã de 3 de setembro trouxe uma melhora no clima, permitindo que a equipe retomasse as atividades de coleta. Entretanto, uma emergência médica na base principal, que exigiu a retirada de um oficial com suspeita de malária, antecipou o retorno dos pesquisadores ao campo-base. A saída do topo das montanhas ocorreu em 12 de setembro, após o registro de uma tempestade severa no dia anterior, que trouxe condições adversas de vento e chuva, colocando em dúvida a viabilidade do resgate.
Durante o período na região, os cientistas coletaram um expressivo volume de espécies, incluindo nove de lagartos, com cinco provavelmente novas para a ciência, além de uma cobra inédita, e 18 espécies de anfíbios, com cerca de dez possíveis novidades. O levantamento de mamíferos revelou aproximadamente 80 exemplares de cerca de 20 espécies, enquanto a avifauna contabilizou cerca de 200 aves, representando aproximadamente 80 espécies diferentes. Foram também coletadas mais de 300 amostras de invertebrados e 400 de plantas, gerando cerca de 2 mil exsicatas, além de amostras de solo, água e parasitas sanguíneos para análises genéticas, citogenéticas e de microbiologia.
Todo o material coletado será depositado em instituições de referência, como o Museu de Zoologia da USP, o Herbário do IB-USP, o Inpa, o Ifam, além de instituições internacionais, incluindo o Jardim Botânico do Missouri e o Museu de História Natural de Oslo. Os estudos que resultarão dessas amostras poderão contribuir para descobertas de novas espécies, avanços na medicina, na agricultura e na compreensão dos biomas de altitude na Amazônia, além de ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade e os processos evolutivos dessas regiões isoladas.
A expedição foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e contou com o apoio logístico do Exército Brasileiro, envolvendo uma equipe multidisciplinar de pesquisadores de diversas instituições nacionais e internacionais, todos com vasta experiência em trabalhos de campo na Amazônia. Os resultados obtidos reforçam a importância de estudos de biodiversidade em áreas remotas, especialmente em face das mudanças ambientais e do potencial de descobertas científicas que essas regiões ainda oferecem.








