Um marinheiro norte-americano de 45 anos, Matt Rutherford, está realizando uma expedição inédita ao tentar completar sozinho e sem assistência uma circunavegação do Oceano Ártico, percorrendo aproximadamente 18,5 mil quilômetros pelo Polo Norte. Fundador da organização sem fins lucrativos Ocean Research Project, Rutherford iniciou sua jornada em 25 de junho, partindo da costa oeste da Groenlândia, e enfrenta uma das regiões mais remotas e perigosas do planeta. A rota planejada inclui passagem pelo Atlântico Norte, trajeto ao longo da litoral ártico da Rússia e, por fim, a travessia da Passagem Noroeste, uma rota marítima que conecta o Atlântico ao Pacífico através do arquipélago canadense. Até o momento, ninguém havia conseguido completar esse percurso de forma solo e sem auxílio externo.
A embarcação utilizada por Rutherford é um veleiro de 12,8 metros, chamado Chimera, que precisa superar obstáculos como o gelo marinho, mudanças bruscas nas condições climáticas e o isolamento extremo. A navegação nessa região exige equipamentos específicos, como radar para detectar blocos de gelo maiores e binóculos térmicos para identificar formações menores, além de uma balsa salva-vidas para emergências. Mesmo assim, o risco de colisões com o gelo aumenta à medida que a viagem avança, especialmente com a aproximação do outono, quando o gelo começa a se formar novamente. Rutherford destacou a dificuldade de enxergar o gelo na escuridão, que se intensifica com o aumento dos períodos de noite polar.
Outro fator que complica a expedição é o calendário, já que o avanço do inverno pode fechar o acesso à passagem e prender o veleiro em blocos de gelo, colocando em risco o sucesso da travessia. Rutherford reconhece que a diminuição do gelo marinho, resultado do aquecimento global, tornou possível a realização da jornada. Desde a década de 1980, estima-se que a extensão do gelo no Ártico tenha diminuído cerca de um terço, embora a região ainda apresente trechos de gelo denso que representam obstáculos significativos. As áreas próximas ao Alasca e à Sibéria são as principais preocupações do marinheiro, que precisa lidar com condições variáveis e imprevisíveis.
A expedição também possui um caráter científico e de mobilização política. Rutherford busca divulgar o trabalho do Ocean Research Project, que normalmente realiza estudos sobre geleiras na Groenlândia com uma escuna especializada. Devido à falta de financiamento, ele optou por essa travessia solo, na esperança de atrair novos doadores e arrecadar recursos para substituir o motor de sua embarcação de pesquisa. Além de completar uma façanha que nenhuma outra pessoa fez sozinha, a viagem visa chamar atenção para as mudanças ambientais no Ártico, uma região que sofre impactos acelerados devido ao aquecimento global.
A complexidade da expedição aumenta com a necessidade de obter autorização do governo russo para navegar pela chamada Rota Marítima do Norte, que acompanha a costa russa e conecta o Mar de Barents ao Oceano Pacífico. Rutherford precisa manter contato diário com as autoridades russas, informando sua localização e comunicando ao Serviço de Segurança Federal (FSB) caso se aproxime demais da costa. Durante a travessia, há a previsão de interrupções na comunicação via satélite, especialmente com o uso do sistema Starlink, que pode deixar de funcionar nas águas russas por períodos prolongados. Mesmo diante dessas incertezas, Rutherford mantém uma postura otimista, afirmando que a imprevisibilidade faz parte da aventura e que o sucesso ou fracasso da jornada depende de fatores naturais imprevisíveis. Até o momento, ele já percorreu águas de países nórdicos e entrou na região sob controle russo, avançando na sua missão de completar uma travessia que, até agora, ninguém realizou sozinho e sem assistência.








