Moluscos marinhos conhecidos como chocos ou sépias possuem uma habilidade avançada de camuflagem que vai além da simples mudança de cor, incluindo a capacidade de alterar a textura física de sua pele de forma rápida e tridimensional. Essa adaptação biomecânica permite que esses animais criem relevos na superfície de sua pele, imitando perfeitamente elementos do ambiente marinho, como rochas, corais e areia, facilitando sua ocultação no fundo do oceano. A transformação ocorre em questão de segundos, resultado de uma complexa interação entre pigmentos visuais e estruturas musculares especializadas denominadas papilas cutâneas, que podem formar relevo tridimensionais sem a necessidade de um esqueleto rígido ou de expansão de fluidos corporais.
Segundo o pesquisador Rodolfo Leandro, do Laboratório de Ecologia e Evolução Molecular da Universidade Federal Fluminense (UFF), esse mecanismo funciona como uma espécie de hidrostato muscular, onde as saliências que surgem na pele do animal alteram o contorno e as sombras da superfície, criando uma camuflagem eficaz. O sistema nervoso dos chocos atua de forma integrada à percepção visual do ambiente, permitindo que o animal ajuste sua textura em tempo real. Ao observar o fundo marinho, o cérebro do molusco detecta variações de contraste, bordas e a complexidade do substrato, enviando comandos específicos aos músculos da pele para formar relevo e padrão de cor compatíveis com o ambiente.
A coordenadora de pesquisa e inovação do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), Priscila Lange, destaca a velocidade e precisão dessa resposta biológica. Ela explica que a mudança completa no padrão de camuflagem pode ocorrer em aproximadamente entre 0,5 e 2 segundos, sem que o animal precise tocar na superfície para reproduzir sua textura. Experimentos demonstram que informações visuais por si só são capazes de desencadear a ativação das papilas cutâneas, evidenciando a alta sensibilidade do sistema nervoso dos moluscos para a adaptação ao ambiente.
Apesar da complexidade biológica envolvida na deformação do tecido e na formação das estruturas tridimensionais, o processo de manutenção da camuflagem demanda um baixo consumo energético. Isso se dá pelo uso de mecanismos musculares que sustentam as papilas de forma contínua, sem a necessidade de estímulos nervosos constantes. Estudos indicam que essas estruturas podem permanecer erguidas por longos períodos após a ativação inicial, graças a um mecanismo semelhante ao denominado “catch mechanism”, conhecido em músculos de alguns moluscos. Dessa forma, os chocos conseguem permanecer camuflados por períodos prolongados sem gastar energia excessiva.
A capacidade de alterar tanto a textura quanto a coloração distingue os chocos e os polvos de outras espécies de cefalópodes. Enquanto esses últimos, principalmente as espécies bentônicas, utilizam suas papilas para se fundir às irregularidades do substrato no fundo do mar, os lulas, que habitam principalmente a coluna d’água, focam sua camuflagem na manipulação de reflexos de luz, contraste e mudanças rápidas de coloração, sem desenvolver a complexa estrutura tridimensional presente nos chocos. Essa diferenciação na estratégia de camuflagem revela a adaptação específica de cada espécie ao seu habitat, destacando a evolução de mecanismos sofisticados de sobrevivência no ambiente marinho.








