Pela primeira vez, a presença de bactérias causadoras de uma doença severa em peixes destinados ao consumo humano foi identificada no Brasil. A columnariose, provocada por espécies do gênero Flavobacterium, até então registrada apenas em peixes de criação na Ásia e nos Estados Unidos, agora também afeta espécies criadas no território brasileiro.
Embora a columnariose não seja transmissível aos seres humanos, sua infecção provoca sérias lesões na pele e nas nadadeiras dos peixes, além de necrose nas brânquias, levando rapidamente à morte dos animais. O impacto econômico gerado pela infecção é significativo, afetando a produção e a comercialização de peixes.
No Brasil, a doença foi detectada em tilápias, espécie originária da África, e também em peixes nativos, como tambaqui, pacu e pintado-da-amazônia. A pesquisa que levou à identificação das bactérias foi coordenada por cientistas do Centro de Aquicultura da Universidade Estadual Paulista (Caunesp), em São Paulo, em colaboração com pesquisadores de Moçambique. Os resultados do estudo foram publicados na revista Microbial Pathogenesis em maio de 2023.
Durante a investigação, foram isoladas 11 cepas bacterianas, das quais seis pertencem à espécie Flavobacterium oreochromis, anteriormente encontrada apenas em tilápias no Brasil. Contudo, agora foi detectada também em outras espécies nativas, como tambaqui, lambari e pacu. Além disso, a infecção causada pela Flavobacterium davisii foi identificada pela primeira vez em pintados-da-amazônia.
Os pesquisadores descobriram que os agentes patogênicos estão adaptados ao clima brasileiro, o que eleva o risco de surtos futuros. Uma das cepas analisadas demonstrou capacidade de proliferação a 28ºC, temperatura média das águas continentais do Brasil. Outras cepas foram observadas se desenvolvendo em temperaturas ainda mais elevadas. A preocupação dos especialistas reside no fato de que algumas dessas bactérias conseguiram desenvolver mecanismos de proteção, permitindo que permaneçam inativas até que as condições se tornem favoráveis para sua multiplicação.
“É fundamental a implementação de protocolos rigorosos de higiene e desinfecção para evitar a colonização dos equipamentos utilizados no manejo dos peixes”, ressalta Daniel de Abreu Reis Ferreira, primeiro autor do estudo, em entrevista à Agência Fapesp.
A detecção inicial da presença das bactérias é realizada por meio de exame visual das colônias em microscópio, embora esse processo exija atenção redobrada. Ferreira explica que, devido ao movimento dos microrganismos, as colônias podem se tornar quase invisíveis em certos meios de cultura, tornando o diagnóstico mais desafiador.
Os especialistas também apontaram que a adição de sal à água pode ser uma estratégia promissora para combater as bactérias responsáveis pela columnariose. Entretanto, é necessário determinar os níveis adequados de salinidade para cada espécie de peixe. Além disso, os pesquisadores planejam continuar as análises genômicas com o objetivo de desenvolver vacinas específicas para cada cepa identificada nos criadouros brasileiros.









