Em 1869, uma descoberta arqueológica na Abadia de Westminster, em Londres, chamou a atenção de estudiosos e arqueólogos. Na ocasião, foi encontrado um sarcófago romano nos jardins do monumento, contendo ossos e uma inscrição em homenagem a Valerius Amandinus, um cidadão britânico que teria vivido na cidade entre os séculos III e IV d.C. Na época, essa descoberta parecia se encaixar no vasto mosaico de vestígios romanos espalhados pela Europa, sem grande destaque.
No entanto, o que complicava a identificação do sepultado era a presença de uma cruz latina esculpida na tampa do sarcófago, datada do século X ou XI, sugerindo que os ossos ali depositados não poderiam ser de Amandinus. A troca da tampa ao longo do tempo e a reutilização de estruturas antigas tornaram o mistério ainda mais intrincado, levantando questionamentos sobre a identidade do indivíduo ali enterrado, especialmente considerando a importância do local para a religião medieval.
Essa incógnita permaneceu por décadas, alimentando debates entre pesquisadores e arqueólogos. Somente na última quarta-feira (20), uma nova análise, liderada pelo arqueólogo Warwick Rodwell, trouxe avanços significativos na resolução do enigma. Rodwell, que atua como consultor arqueológico na Abadia, publicou um estudo no Journal of the British Archaeological Association, no qual conclui que os ossos pertencem a um monge de alta patente da Idade Média.
A pesquisa envolveu análises detalhadas, contando com a colaboração de especialistas em osteologia e datação por carbono. James Young Langthorne, especialista em ossos humanos da Pre-Construct Archaeology (PCA), foi um desses profissionais. A partir de suas avaliações, foi possível determinar que o indivíduo tinha entre 35 e 49 anos na época da morte, além de medir aproximadamente 1,75 metro de altura. Essas informações contrastam com as estimativas do século XIX, que sugeriam uma pessoa de até 30 anos e 1,70 metro de altura, indicando que os ossos passaram por uma reavaliação significativa com o avanço das técnicas modernas.
A datação por carbono também confirmou que os ossos datam do final do século X ou início do século XI, entre os anos 987 e 1052 d.C., período em que a reutilização do sarcófago romano e a remodelação de sua tampa ocorreram, provavelmente durante o final do período saxão. Essa informação reforça a hipótese de que o sepultado tinha uma posição de destaque na sociedade da época, dado o grau de requinte do túmulo, que foi reutilizado de uma estrutura antiga e posteriormente inserido na estrutura de pedra do túmulo original.
Com base nesses dados, Rodwell reduziu a lista de possíveis indivíduos a apenas duas opções. O primeiro é Aelfwig, que teria sido abade do mosteiro beneditino de Westminster, falecido por volta de 1020, e que, segundo as evidências, poderia ter sido enterrado ali devido à sua posição elevada na hierarquia religiosa. A segunda hipótese é Wulnoth, sucessor de Aelfwig, que morreu em 1049 e também possivelmente foi sepultado na mesma área.
Apesar de ambas as possibilidades serem plausíveis, o arqueólogo acredita que Aelfwig é o candidato mais provável. Ele justifica sua preferência pelo fato de Aelfwig já ser conhecido como monge de Westminster, além de a posição de destaque que ocupava indicar que seu sepultamento teria ocorrido em um local de maior relevância, como o sarcófago reutilizado.
Rodwell também destacou que o sarcófago, originalmente romano, foi reutilizado na época medieval, com o corpo do monge colocado dentro de um caixão e posteriormente inserido na estrutura de pedra. A cruz latina na tampa reforça essa hipótese, pois indica que o indivíduo tinha uma posição de destaque na hierarquia eclesiástica.
O arqueólogo sugere ainda que o sepultamento ocorreu no braço leste da igreja da abadia, onde a tampa do sarcófago foi utilizada como laje de piso antes de ser desenterrada e reutilizada durante as obras de Henrique III, que governou a Inglaterra entre 1216 e 1272.
Para Rodwell, essa descoberta demonstra que, na arqueologia, muitas vezes há uma complexidade maior do que a aparente, e que a compreensão de um achado requer uma análise cuidadosa e aprofundada. A identificação do monge, ainda que não definitiva, representa um avanço importante na compreensão da história da Abadia de Westminster e de seus personagens históricos.






