O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) divulgou na última sexta-feira, dia 14 de agosto, uma previsão elaborada pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) que aponta uma probabilidade de até 95% de ocorrência de um fenômeno El Niño de alta intensidade nos meses seguintes. Essa estimativa reforça a possibilidade de o evento atingir níveis considerados os mais severos desde 1950, com uma chance de 69% de que sua força seja a maior registrada em mais de 70 anos.
De acordo com as análises da NOAA, esse cenário se deve ao forte aquecimento das águas do Oceano Pacífico, onde o El Niño se forma. Os dados indicam que, nos trimestres de setembro a novembro (SON), outubro a dezembro (OND) e novembro a janeiro (NDJ), as temperaturas das águas superficiais podem alcançar ou superar 2,5°C acima da média, condição que caracteriza a intensificação do fenômeno. Tal aquecimento altera a circulação atmosférica global, provocando mudanças no padrão de chuvas e temperaturas em diversas regiões do planeta, incluindo o Brasil, especialmente nas regiões Sul, Norte e Nordeste.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical permanecem mais quentes do que o habitual por períodos prolongados, influenciando o clima mundial. No Brasil, esse fenômeno costuma trazer consequências significativas, como aumento do risco de inundações, deslizamentos de terra e enxurradas, especialmente nas áreas costeiras. O pesquisador Marcus Polette, do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), explicou que o fenômeno modifica a circulação atmosférica e oceânica em escala global, alterando regimes de chuvas, temperaturas e a frequência de eventos extremos. Ele destacou que, em um contexto de mudanças climáticas, esses efeitos tendem a ser potencializados, deixando cidades e ecossistemas costeiros mais vulneráveis a secas, enchentes, tempestades, ondas de calor e erosão costeira, além de outros impactos ambientais e socioeconômicos.
O início do El Niño foi registrado em junho deste ano, e as primeiras manifestações já foram observadas no Brasil, principalmente na Região Sul, onde as ocorrências de chuvas acima da média para o período variaram entre 30% e 90%. Estima-se que o fenômeno se prolongue até março de 2024, mantendo o padrão de chuvas excessivas no Sul do país e de déficit no Norte e Nordeste a partir de outubro.
O professor Micael Cecchini, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), reforça a preocupação dos cientistas com a influência do El Niño na Região Sul, devido à sua configuração favorável à ocorrência de chuvas intensas. Segundo ele, o fenômeno favorece a formação de bloqueios atmosféricos, que dificultam o avanço de frentes frias ao chegarem ao continente. Essas frentes muitas vezes são desviadas para o oceano ou permanecem estacionadas sobre a região, agravando o risco de eventos climáticos extremos.
Em 2024, o Brasil enfrentou recordes históricos de precipitações, que resultaram em danos de grande proporção. A expectativa é de que o atual ciclo do El Niño intensifique esses efeitos, reforçando a necessidade de monitoramento e preparação para os impactos que o fenômeno pode causar nas próximas semanas e meses.








