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Home Ciência

Recuperação de ecossistemas após incêndios na Amazônia e outros biomas brasileiros

07/09/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:4 minutos de leitura
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A questão de como os ecossistemas se recuperam após incêndios recorrentes permanece central no debate ambiental, especialmente na Amazônia, onde a frequência e a intensidade das queimadas têm aumentado devido às mudanças climáticas, ao desmatamento e às atividades humanas. Apesar de alguma vegetação sempre retornar após uma queimada, a composição e a estrutura das áreas afetadas podem diferir bastante do estado original, dependendo do número de eventos de fogo e do que sobrou vivo no local.

Em biomas como savanas, campos e florestas de coníferas, o fogo é parte integrante do ciclo ecológico, contribuindo para a manutenção da biodiversidade. Esses ecossistemas coevoluíram com o fogo, que ajuda a regular espécies e processos naturais. Por outro lado, na floresta amazônica de terra firme, o fogo foi historicamente raro, restrito a períodos de secas extremas e ao manejo indígena em pequenos mosaicos, o que torna sua vulnerabilidade a incêndios mais recente e preocupante.

Estudos realizados na década de 1990 em Paragominas, no leste do Pará, demonstraram que, na floresta madura, a combustão sustentada — aquela que consegue se manter por conta própria, sem fontes externas de calor — não se estabelecia mesmo após longos períodos de estiagem. Contudo, as mudanças climáticas têm tornado a fogo na Amazônia uma realidade mais frequente e destrutiva. Esses eventos, contudo, são também sintomas de uma degradação anterior, alimentada por transformações como o desmatamento para pastagens, a exploração madeireira e o aumento da carga de combustível vegetal, que tornam a floresta mais suscetível às queimadas.

Pesquisas em Paragominas indicaram que áreas de pastagem apresentam temperaturas quase 10 °C superiores às da floresta ao meio-dia, além de uma umidade relativa 30% menor. A exploração seletiva de madeira também aumenta a quantidade de material combustível, elevando o risco de incêndios, com cargas variando de 30 a 60 Mg/ha na floresta, chegando a 180 Mg/ha em áreas exploradas. A regeneração dessas áreas após queimadas depende da intensidade do uso anterior e da proximidade de fontes de sementes, como vegetação remanescente, áreas próximas ou animais que transportam sementes.

A sucessão ecológica em áreas abandonadas é influenciada por esses fatores, com locais de uso intenso tendendo a se estabilizar em gramíneas, enquanto áreas com vegetação remanescente, como arbustos, atraem aves e facilitam a regeneração, demonstrando que a recuperação depende mais do que sobrou vivo e de quem transporta as sementes do que do que foi destruído.

No cenário mais amplo, eventos como o El Niño de 2015 e 2016 exemplificaram o impacto devastador dos incêndios na Amazônia, com a perda de aproximadamente 2,5 bilhões de caules de árvores em uma região equivalente a apenas 1,2% da floresta brasileira. Esses incêndios liberaram cerca de 495 teragramas de CO2 na atmosfera, contribuindo para o efeito estufa. Na região do Baixo Tapajós, os incêndios afetaram florestas manejadas por populações tradicionais, levando a uma redução de 44% na biomassa acima do solo após um incêndio e até 71% após dois eventos. A área basal, que indica a quantidade de madeira na floresta, caiu até 53,8%, enquanto o dossel foi mais afetado na segunda queimada, com uma diminuição de 44%.

A fauna também sofreu perdas significativas, com a biodiversidade reduzida pela metade após dois incêndios, afetando espécies comuns e raras. A conversão da floresta madura em mosaico de espécies pioneiras de vida curta evidencia a mudança na composição vegetal, embora a quantidade de sementes no solo — o banco de sementes — ainda apresente potencial para a recuperação, embora seja pobre em diversidade de espécies. Estudos de palmeiras no território indicam que, embora a riqueza de espécies não varie entre diferentes habitats, a abundância é maior em áreas perturbadas, já que essas plantas são capazes de sobreviver ao fogo, aproveitando a maior entrada de luz e o espaço aberto após a mortalidade de árvores maiores.

Ao comparar com o cerrado, que possui uma relação mais intrínseca com o fogo, fica claro que na vegetação amazônica o evento destrói estruturas e causa mortalidade elevada nas árvores, que raramente rebrotam por rebrota, diferentemente do cerrado, onde plantas possuem casca espessa, órgãos subterrâneos de reserva e capacidade de rebrote. Assim, o fogo recorrente empurra a floresta na direção de um estado mais inflamável, dominado por gramíneas, tornando-se uma ameaça à sua integridade.

Diante desse cenário, a recuperação de áreas afetadas na Amazônia não ocorre espontaneamente, ao contrário do que acontece em biomas como o cerrado. A restauração exige ações intencionais, incluindo manejo integrado do fogo, brigadas comunitárias e estratégias de regeneração natural, com apoio à recuperação de espécies prioritárias e redes de sementes. Além disso, a abordagem de restauração biocultural, que integra o conhecimento tradicional das comunidades locais, tem se mostrado uma alternativa promissora, especialmente em territórios indígenas. Estudos realizados em comunidades da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns indicam que esses moradores reconhecem as causas e consequências das queimadas, demonstrando disposição para ações de prevenção e recuperação.

Em suma, a recuperação da floresta amazônica após incêndios é um processo que depende de múltiplos fatores e exige esforços coordenados. Embora a floresta possa se recuperar em termos de quantidade de plantas, sua composição e identidade original não retornam automaticamente, tornando a recuperação uma tarefa que precisa ser construída com ações humanas conscientes e sustentáveis.

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