Um sapo de aparência arredondada, cuja forma lembra um pequeno abacate, e cuja expressão facial apresenta uma boca voltada para baixo, tem chamado a atenção na internet por sua semelhança com uma expressão de mau humor. Popularmente apelidado de “abacate rabugento”, o animal viralizou devido à sua aparência que, embora pareça transmitir raiva ou irritação, é resultado de uma interpretação humana. Segundo a biomédica e professora de biologia do Colégio Galois, em Brasília, Francine Cária, essa associação é uma projeção de emoções humanas, e o animal não possui essa característica em sua expressão natural.
O animal, cientificamente conhecido como Breviceps fuscus, é uma espécie de anfíbio que habita exclusivamente na África do Sul, em regiões de florestas e áreas de vegetação conhecida como fynbos, nas montanhas próximas à costa sul do país. Apesar de sua aparência peculiar, o sapo não necessita de corpos d’água permanentes para reproduzir-se, diferentemente de muitas outras espécies de anfíbios. No entanto, sua sobrevivência depende de ambientes úmidos, e ele busca locais com solo úmido onde passa grande parte do tempo escondido em galerias subterrâneas, o que o protege da desidratação.
A relação entre o sapo e a chuva vai além do nome popular. Como vive enterrado na maior parte do tempo, ele emerge para a superfície principalmente em períodos de alta umidade, dias nublados e logo após fortes chuvas. Essa adaptação é explicada pelo biólogo Victor Maciel, especialista em reprodução animal, que destaca que esses momentos de maior umidade facilitam sua atividade e reprodução, além de favorecer sua busca por alimento.
Francine Cária acrescenta que o sapo possui hábitos predominantemente noturnos, saindo à noite para caçar pequenos insetos e outros invertebrados, o que é comum entre espécies de ambientes similares. Sua aparência, que inclui pernas curtas e um corpo arredondado, também desempenha um papel na sua sobrevivência. Segundo Victor Maciel, as pernas curtas facilitam a escavação do solo, enquanto o corpo inflado pode dificultar a captura por predadores. Quando ameaçado, o animal pode inflar seu corpo para dificultar sua retirada de galerias subterrâneas, uma estratégia que, além de ampliar sua proteção, ajuda a dissuadir predadores. Estudos indicam que essa espécie é predada por animais como o porco-do-mato africano, embora o sapo não seja venenoso e não ofereça riscos às pessoas.
Durante o período de reprodução, os machos do sapo emitem vocalizações para atrair as fêmeas, formando coros que podem durar vários dias, especialmente em dias de chuva. Esses chamados são acompanhados por secreções aderentes que ajudam na manutenção do acasalamento. Após a cópula, os ovos são depositados em câmaras subterrâneas, onde se desenvolvem sem a necessidade de corpos d’água, uma adaptação que garante maior proteção aos filhotes.
Apesar de sua distribuição limitada a uma região específica da África do Sul, o sapo da chuva negro não é atualmente classificado como uma espécie ameaçada de extinção. No entanto, especialistas alertam que alterações no habitat natural, como o desmatamento de florestas nativas e o plantio de árvores exóticas, já têm impactado parte de suas populações, o que pode representar uma ameaça futura à sua conservação.








