Cerca de dois mil anos atrás, uma erupção do Monte Vesúvio provocou a destruição das cidades romanas de Pompeia e Herculano, soterrando-as sob camadas de cinzas e lava. Entre os vestígios históricos preservados, encontram-se pergaminhos e papiros que continham escritos de filósofos e outros autores da antiguidade. Contudo, muitos desses documentos foram carbonizados e enterrados, resultando na perda de valiosos materiais históricos.
Recentemente, uma equipe de pesquisadores liderada pela Universidade da Califórnia, Berkeley, anunciou o desenvolvimento de uma técnica que pode permitir a leitura de textos anteriormente considerados irrecuperáveis. A abordagem combina tecnologias de raios X com inteligência artificial (IA) para identificar e decifrar inscrições feitas com tinta à base de chumbo, elemento que, segundo os estudos, pode ser detectado por esse método. A pesquisa foi publicada na revista Plos One em 16 de setembro de 2023.
Embora a IA já tivesse sido empregada em outros estudos para decodificar digitalmente pergaminhos encontrados em Herculano, a aplicação de raios X nessa área ainda não era amplamente estabelecida. Isso ocorre porque a maioria das inscrições antigas foi feita com tintas à base de carbono, que não é facilmente detectada por essa tecnologia. No entanto, os pesquisadores sugerem que a busca deve focar na presença de chumbo, um elemento que os raios X conseguem identificar com maior precisão.
Para validar a técnica, os cientistas realizaram experimentos controlados, criando um pergaminho de papiro artificial com tinta contendo chumbo e carbono. Após carbonizar o material, reproduzindo as condições de conservação dos manuscritos originais de Herculano, eles utilizaram fluorescência de raios X para determinar a composição química da amostra. Posteriormente, aplicaram tomografia de raios X e desenvolveram um software específico para gerar imagens tridimensionais do pergaminho. Esses procedimentos permitiram que os pesquisadores lessem parte do texto presente na amostra de teste, mesmo em áreas com níveis mínimos de chumbo.
Apesar de não ter sido possível decifrar a totalidade do material, os resultados indicam que a técnica tem potencial para ajudar na recuperação de textos antigos, especialmente aqueles escritos com tinta à base de chumbo. Os autores do estudo ressaltam que esse método oferece uma alternativa de baixo risco, preservando a integridade dos artefatos de valor inestimável. Assim, a inovação representa um avanço importante na área de preservação e estudo de manuscritos históricos, podendo ampliar significativamente o entendimento de textos antigos que, até então, permaneciam inacessíveis devido às condições de conservação e composição dos materiais utilizados na antiguidade.






