Pesquisadores instalaram câmeras infravermelhas em diversos níveis de uma floresta tropical na República Democrática do Congo, revelando uma perspectiva tridimensional da comunidade de mamíferos no Parque Nacional de Lomami, uma das áreas protegidas da Bacia do Congo. Os estudos, publicados nas revistas Journal of Mammalogy e Ecology, demonstram que a biodiversidade na floresta não se limita ao solo, abrangendo também camadas superiores, como o sub-bosque, as copas das árvores e os cipós, contribuindo para um entendimento mais completo da fauna local.
A equipe da Florida Atlantic University (FAU), nos Estados Unidos, posicionou câmeras em três níveis distintos da floresta, incluindo pontos próximos ao chão, no sub-bosque e a alturas que variaram entre 20 e 30 metros na copa das árvores. Ao todo, os equipamentos capturaram imagens de 47 diferentes táxons de mamíferos, incluindo primatas, carnívoros, roedores, ungulados e pangolins. Além disso, a pesquisa identificou oito espécies cuja distribuição geográfica ainda não havia sido registrada na região, contribuindo para o aprimoramento do conhecimento sobre os habitats desses animais.
Os dados revelaram uma distribuição diversa entre as diferentes alturas da floresta. Foram detectados 32 táxons no solo, 23 no sub-bosque e 22 na copa, indicando que, embora a maior parte da diversidade tenha sido observada por câmeras terrestres, uma parcela considerável de espécies arborícolas foi registrada nas camadas superiores. Notavelmente, cerca de 25% dos mamíferos considerados arborícolas demonstraram preferência pelo sub-bosque, uma descoberta que evidencia a importância de explorar diferentes níveis para compreender a ecologia dessas espécies. Segundo Daniel Alempijevic, autor principal do estudo, as câmeras funcionaram como uma “visão 3D” da comunidade de mamíferos, permitindo uma análise mais detalhada de seus comportamentos e distribuição vertical na floresta.
Para instalar as câmeras nas regiões mais elevadas, Alempijevic precisou aprender técnicas de escalada, tendo recebido treinamento no Panamá antes de realizar o trabalho de campo na Bacia do Congo. As gravações geraram milhares de vídeos, posteriormente analisados por pesquisadores e voluntários treinados, revelando comportamentos raros ou difíceis de serem observados em campo. Entre os registros, destacam-se morcegos investigando frutos na copa das árvores, pequenos morcegos insetívoros se aproximando de outros mamíferos em busca de insetos atraídos por eles, além de uma quantidade significativa de registros de aves, incluindo interações com mamíferos e predadores como aves de rapina.
A pesquisa também documentou a presença do pangolim-de-barriga-preta, considerado uma espécie difícil de ser avistada, podendo representar um dos primeiros registros por armadilha fotográfica para esse mamífero. Além disso, foram identificadas três espécies de pangolins na mesma pesquisa, dado de grande relevância, pois esses animais estão entre os mais traficados globalmente. Os vídeos também mostraram interações entre aves e mamíferos, além de predadores, reforçando a complexidade das interações na floresta.
Outro estudo, publicado na revista Ecology, analisou dados de 25 espécies de mamíferos mais frequentemente detectadas, incluindo bonobos, macacos-de-cauda-vermelha, civetas-de-palmeira, javalis-vermelhos, mangustos-de-nariz-comprido e diferentes esquilos. A análise revelou que a presença de mamíferos aumentava com a elevação da altitude, mesmo em uma região com uma variação de apenas 43 metros, o que demonstra a importância de observar diferentes camadas da floresta para compreender a distribuição desses animais.
Segundo os autores, essa abordagem pode auxiliar na compreensão de como a fauna responde às mudanças provocadas por atividades humanas. Como exemplo, os pangolins-de-barriga-branca foram observados utilizando mais a copa das árvores em áreas preservadas, enquanto em regiões desmatadas ou utilizadas para agricultura, passaram a ficar mais próximos ao solo, o que aumenta sua vulnerabilidade à caça ilegal. Essas informações são essenciais para identificar habitats prioritários e entender os efeitos do desmatamento e da perda de habitat sobre as espécies.
A Bacia do Congo abriga uma das maiores áreas de floresta tropical intocada do planeta, com cerca de 60% de sua extensão localizada na República Democrática do Congo. No entanto, décadas de insegurança, dificuldades de acesso e infraestrutura limitada resultaram em vastas regiões pouco estudadas, deixando lacunas importantes sobre a distribuição e a ecologia de muitas espécies. Para Junior Amboko, coautor dos estudos e pesquisador da FAU, a floresta representa uma biodiversidade que ainda está sendo descoberta, enquanto a principal autora sênior, Kate Detwiler, destaca que a tecnologia empregada permite uma observação mais próxima à experiência dos animais na floresta, facilitando futuras aplicações em áreas de difícil acesso na região. A expectativa é que esses métodos possam ser utilizados para detectar espécies raras ou ameaçadas, identificar habitats críticos e monitorar os impactos de atividades humanas na biodiversidade da Bacia do Congo.








