Uma espécie de cobra encontrada no Irã, conhecida como Pseudocerastes urarachnoides, apresenta uma estratégia de caça única: na ponta de sua cauda, ela possui uma estrutura que imita uma aranha, com um corpo arredondado e partes alongadas que lembram patas. Essa adaptação serve para atrair pássaros, que se aproximam atraídos pela aparência de uma presa potencial, e acabam se tornando a refeição do réptil. A descoberta dessa característica, que até então era conhecida apenas superficialmente, foi aprofundada por meio de estudos de tomografia computadorizada por raios X, publicados em 10 de setembro na revista científica The Anatomical Record.
A espécie, cujo nome científico é Pseudocerastes urarachnoides, foi inicialmente registrada em 1968, quando um exemplar foi coletado e levado ao Field Museum, em Chicago. Na época, os pesquisadores chegaram a pensar que a estrutura na ponta da cauda poderia ser uma deformidade, como um tumor, devido à sua aparência incomum. Durante décadas, o espécime permaneceu na coleção do museu sem uma compreensão clara de sua origem ou função. A questão só começou a ser esclarecida após a descoberta, em 2003, de outro animal com uma cauda semelhante, o que levou à descrição formal da espécie em 2006. Desde então, vídeos registrados na natureza demonstraram que a víbora utiliza essa estrutura para atrair aves, um comportamento considerado extraordinário entre as serpentes.
Para entender melhor a composição dessa cauda, pesquisadores liderados pelo paleontólogo Georgios Georgalis, da Academia Polonesa de Ciências, realizaram análises detalhadas das vértebras que sustentam a estrutura. Utilizaram a técnica de tomografia computadorizada de raios X no laboratório do próprio Museu Field, uma tecnologia que permite gerar imagens tridimensionais de estruturas internas delicadas sem a necessidade de cortes ou danos ao espécime. Essa abordagem revelou que, embora a aparência externa da cauda seja bastante incomum, suas vértebras internas são semelhantes às de outras víboras, indicando que a estrutura externa é uma modificação morfológica superficial.
A descoberta evidencia as limitações da paleontologia na reconstrução de animais extintos, uma vez que os ossos muitas vezes não oferecem pistas sobre comportamentos ou características externas complexas, como a imitação de uma aranha. Segundo Georgalis, essa é uma demonstração de como muitas características externas e comportamentais podem passar despercebidas na análise de fósseis, dificultando a compreensão completa da biologia de espécies pré-históricas. Além disso, o estudo reforça a importância das coleções de museus, que podem guardar exemplares por décadas e ainda assim contribuir para descobertas científicas relevantes.
A pesquisa também abre possibilidades para investigações futuras sobre a evolução de tecidos especializados, como os encontrados na cauda da víbora, e seu desenvolvimento ao longo do tempo. Para Sara Ruane, curadora associada de herpetologia do Field Museum e coautora do estudo, esses achados demonstram o valor de coleções históricas na ciência, evidenciando que exemplares coletados há anos podem continuar fornecendo insights inéditos sobre a biologia de espécies atuais e passadas.








