Uma enfermeira foi vítima de agressões físicas e ameaças de morte enquanto trabalhava na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O episódio ocorreu na última segunda-feira, dia 31 de outubro, durante o atendimento a uma bebê de nove meses, e evidencia um problema que afeta não apenas a unidade específica, mas o setor de saúde como um todo.
Segundo relato de Keila Cristina Rodrigues Barbosa, a agressão teve início durante a classificação de risco do atendimento. A mãe da criança chegou à UPA alegando que a filha estava engasgada, o que levou a equipe a priorizar a avaliação da criança. Keila realizou os procedimentos básicos, constatando sinais vitais estáveis, respiração regular, choro e saturação de oxigênio em 100%. Apesar de mostrar esses sinais à mãe e tentar acalmá-la, a profissional explicou que, naquele momento, não havia evidências de engasgo, mas que a criança seria encaminhada para avaliação médica adicional.
Durante a tentativa de obter informações adicionais, a mãe interpretou as questionamentos de Keila como uma dúvida sobre sua conduta, o que gerou uma reação agressiva. A enfermeira relata que, nesse momento, foi atingida por quatro socos no rosto, além de ter sido chutada, empurrada e recebendo pontapés. A agressão durou aproximadamente um minuto, até que o porteiro da unidade conseguiu intervir e retirar a agressora. Testemunhas, incluindo agentes penitenciários presentes na UPA, ajudaram a conter a situação.
A vítima afirma que, após as agressões físicas, a mãe da criança e seu marido permaneceram na unidade e fizeram ameaças de morte contra ela. A Polícia Militar foi acionada por meio de ligações feitas por Keila e por colegas de trabalho, chegando ao local após cerca de meia hora. Antes de deixar a unidade, a suspeita deixou um papel com nome e telefone na recepção e afirmou que procuraria a enfermeira novamente. Os funcionários também conseguiram fotografar a placa do veículo utilizado pelo casal.
Keila destaca a demora na chegada da polícia como um fator que aumentou sua sensação de insegurança, afirmando que, se a suspeita estivesse armada, o risco de algo grave aconteceria. Ela também denuncia a ausência de profissionais de segurança na UPA, que, segundo ela, está vulnerável a agressões constantes, uma vez que o município não dispõe de vigilância ou guarda municipal na unidade.
A administração municipal de São Joaquim de Bicas informou que a coordenação da UPA prestou apoio à enfermeira e acionou imediatamente as autoridades policiais. A unidade possui circuito interno de câmeras monitorado 24 horas, e as imagens e informações estão sendo disponibilizadas às investigações. Ainda segundo a prefeitura, este é o primeiro caso documentado de agressão física contra profissionais de enfermagem na rede municipal de saúde.
Keila, que atua há cinco anos na área, especialmente com crianças e gestantes, encontra-se psicologicamente abalada após o episódio. Ela relata estar em tratamento com medicação e não sabe quando poderá retornar às atividades profissionais, devido ao trauma causado pela agressão. O advogado responsável por seu caso anunciou que será instaurada investigação por possíveis crimes de lesão corporal, ameaça, injúria e outros delitos relacionados à honra.
Dados do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG) revelam que a violência contra profissionais da enfermagem é uma realidade preocupante no estado. De julho de 2025 a julho de 2026, 479 profissionais responderam a um questionário, dos quais 95% relataram já terem sofrido algum tipo de violência no ambiente de trabalho. Entre as formas de agressão, destacam-se violência verbal, assédio moral, agressões físicas, injúria racial e violência sexual. Os pacientes lideram as responsáveis por essas ações, com 144 registros, seguidos por colegas de profissão, familiares de pacientes, equipe médica, empregadores e acompanhantes.
Além do impacto físico, as agressões também prejudicam a saúde mental dos trabalhadores, como explica o psiquiatra Jorge Tostes. O especialista destaca que o estresse e o trauma decorrentes de episódios de violência podem evoluir para burnout, irritabilidade, retraimento emocional e outros transtornos, incluindo depressão e uso abusivo de álcool ou medicamentos. Pesquisas indicam que quase metade dos médicos que atuam na rede pública apresentam algum transtorno de saúde mental, com altos índices de ansiedade e esgotamento profissional.
A questão da violência contra profissionais de saúde também tem ganhado espaço no Congresso Nacional. O Projeto de Lei nº 2.672/2025 propõe o aumento das penas para crimes praticados contra esses profissionais durante o exercício de suas funções, incluindo lesão corporal, ameaça, desacato e homicídio em casos mais graves. A proposta, aprovada pelo Senado, aguarda análise na Câmara dos Deputados. Especialistas alertam que o endurecimento das penas, por si só, não resolve o problema, sendo necessária a implementação de políticas de segurança, prevenção e gestão de conflitos nos estabelecimentos de saúde.









