Uma nota técnica do Fórum Permanente São Francisco alerta que Minas Gerais pode enfrentar a pior seca de sua história até 2028, com potencial impacto no abastecimento de água de grande parte de Belo Horizonte e sua Região Metropolitana. O documento, que enfatiza a necessidade de ações emergenciais de planejamento por parte dos órgãos públicos, considera os efeitos do fenômeno climático conhecido como Super El Niño, atualmente em atividade e responsável por ondas de calor intenso, chuvas extremas e distribuição irregular de precipitações no Brasil.
Segundo o estudo, há uma probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento de grande magnitude nos próximos dois anos, após o fenômeno que já atua em 2026. Dados climáticos de 55 anos indicam que, após episódios similares, a vazão do rio das Velhas, principal fonte de abastecimento na região, sofre quedas acentuadas, podendo atingir níveis críticos. Estima-se que, em um cenário de El Niño muito forte, com temperaturas oceânicas até 3°C acima da média, a vazão do rio pode reduzir-se em até 47%, chegando a cerca de 15 metros cúbicos por segundo, valores comparáveis aos piores anos registrados na história, como 2017 e 2014.
O ponto do rio mais afetado fica entre os distritos de Bela Fama e Honório Bicalho, em Nova Lima, onde está localizada a Estação de Tratamento de Água (ETA) de Bela Fama, responsável pelo fornecimento para aproximadamente 70% de Belo Horizonte e 43% da Região Metropolitana, segundo informações da Copasa. Dados históricos revelam que, nos últimos 50 anos, quatro El Niños de forte intensidade ocorreram, com o último deles em 2024, e que após esses eventos a vazão média do rio das Velhas apresentou quedas expressivas, agravadas por interferências humanas.
O pesquisador responsável pelo estudo, Euler Cruz, explica que além do impacto natural do fenômeno meteorológico, fatores ambientais agravaram a situação. Desde 1971, quando começou a análise do volume de água na região de Honório Bicalho, houve uma redução de 13% na vazão média do rio ao longo de 55 anos, uma tendência atribuída principalmente às atividades mineradoras na área. Cruz destaca que mineradoras rebaixam o lençol freático para aprofundar cavas e retirar água das nascentes, o que, durante períodos de seca, acarreta uma redução de mais de 30% na vazão do rio, contribuindo para o agravamento das secas.
A nota técnica aponta que, em caso de um El Niño de alta intensidade, com temperaturas oceânicas até 3,7°C acima da média, a redução na vazão do rio das Velhas poderia chegar a 60%, levando a uma crise hídrica severa na Região Metropolitana. O especialista alerta que o período seguinte ao fenômeno costuma ser ainda mais crítico, com secas mais severas, podendo afetar significativamente o abastecimento de água na região. Segundo ele, há uma forte probabilidade de que 2027 seja um ano seco, com 2028 apresentando condições ainda piores.
O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, presidido por Valter Vilela, também manifesta preocupação com os efeitos previstos na nota técnica. O colegiado tem iniciado discussões com a Copasa e o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) para avaliar as medidas necessárias. Vilela destaca que a mineração, ao diminuir a infiltração de água da chuva e a recarga dos lençóis subterrâneos, agrava o problema de escassez hídrica. Ele também aponta a expansão imobiliária e a perfuração de poços clandestinos como fatores que contribuem para o rebaixamento do lençol freático, reforçando a necessidade de um planejamento integrado que considere o crescimento urbano e a preservação ambiental.
Experiências de agricultores da Região Metropolitana, como a família Nunes, ilustram ações de adaptação ao longo do tempo. Desde 2014, após uma estiagem, a propriedade em Caeté passou a investir em armazenamento de água, técnicas de irrigação mais eficientes, como o plantio direto, e na construção de reservatórios para captar água da chuva. Essas medidas, embora eficazes em pequenas escalas, são insuficientes para resolver o problema de forma abrangente, segundo o agricultor Marcelo Fernandes Nunes, de 40 anos, que defende a ampliação de ações similares em nível regional.
Especialistas do Fórum São Francisco ressaltam que o planejamento do abastecimento não deve aguardar a ocorrência de uma seca severa para agir. Recomendações enviadas à Copasa incluem a incorporação de cenários de redução de vazão nos planos de contingência, a revisão de outorgas de uso de água subterrânea e o controle de captações irregulares, além de campanhas de conscientização pública. Euler Cruz enfatiza que, mesmo sem mudanças drásticas na quantidade total de chuva, a distribuição irregular dos eventos climáticos pode dificultar a recuperação dos níveis de água, exigindo ações antecipadas.
Previsões indicam que o El Niño deve manter sua intensidade durante a primavera e o verão de 2024 e 2025, com possibilidade de enfraquecimento apenas no início de 2027. Ainda assim, a permanência de águas aquecidas no Pacífico e outros fatores atmosféricos podem alterar o cenário. O Centro de Inteligência em Defesa Civil (Cindec) aponta que as temperaturas no estado tendem a ficar acima da média, com exceções na Zona da Mata, próxima ao Rio de Janeiro, onde o aquecimento deve ser menor. A expectativa é de que o fenômeno continue influenciando o clima de Minas Gerais até o início de 2027, mesmo com possíveis variações na sua intensidade.
A Copasa, por sua vez, afirmou estar avaliando a nota técnica do Fórum São Francisco. A empresa destacou que possui uma equipe especializada em meteorologia e climatologia para monitorar continuamente as condições dos mananciais e adotar medidas necessárias para garantir o abastecimento. Entre as ações já em andamento estão a ampliação e modernização do Sistema Rio Manso, além de obras no Sistema Rio das Velhas, incluindo a instalação de um sistema de ultrafiltração na ETA Bela Fama, visando fortalecer a segurança do fornecimento de água na região metropolitana.







