Um homem de 92 anos, conhecido como Seu Zé, decidiu retomar seus estudos e se matriculou na Educação de Jovens e Adultos (EJA) em Belo Horizonte, com o objetivo de realizar um antigo sonho de aprender a ler e escrever. Sua trajetória de perseverança e dedicação tem inspirado a comunidade escolar e evidencia a importância da inclusão de idosos nas salas de aula do Brasil.
José Maria Borges, nascido em 1934, trabalhou durante toda a vida como servente de pedreiro. Sua rotina exaustiva e a preocupação em garantir uma educação adequada aos filhos limitaram suas oportunidades de estudo na juventude. Mesmo assim, sempre reconheceu o valor do aprendizado e incentivou seus filhos a buscarem uma formação superior. Após a aposentadoria, por volta dos 70 anos, Seu Zé decidiu que era hora de retomar seus estudos, motivado pelo desejo de superar o analfabetismo que carregava até então.
A iniciativa de Seu Zé de aprender a ler e escrever começou em 2016, quando passou a frequentar uma escola no bairro Itatiaia. No entanto, a instituição precisou encerrar suas atividades na modalidade EJA, o que o levou a buscar alternativas. Entre 2017 e 2018, ele participou de uma turma externa de outra escola, mantendo o compromisso com sua meta. Foi somente em 2019 que conseguiu se matricular na Escola Municipal Anne Frank, localizada no bairro Confisco, onde permanece estudando atualmente.
A diretora da escola, Kátia Mendes, destaca o exemplo de Seu Zé como uma inspiração para toda a comunidade escolar. Segundo ela, a realização de um sonho de longa data representa um orgulho não só para a instituição, mas também para os professores e colegas. A gerente da EJA, Nesir Freitas, reforça que o retorno aos estudos trouxe para o idoso uma maior autonomia e segurança, transformando sua rotina e sua autoestima. Antes, Seu Zé tinha dificuldades até para assinar seu nome, usando apenas a digital, e hoje sente orgulho de escrever sua própria assinatura.
Seu Zé costuma ir e voltar sozinho das aulas, realizadas no período noturno, demonstrando sua determinação. Sua rotina inclui a leitura e a escrita, atividades que antes eram um desafio, mas que agora representam uma conquista pessoal. Em 92 anos de vida, ele se tornou uma referência de persistência, não apenas para os colegas de sala, mas também para professores e a direção da escola. Sua história mostra que nunca é tarde para buscar o conhecimento e que a educação é um direito que deve ser acessível a todas as idades.
Para celebrar sua trajetória e concretizar seu sonho, Seu Zé decidiu comemorar seu aniversário de 92 anos na própria escola, onde recebeu a homenagem de colegas e funcionários. Como presente, ganhou uma camisa do Atlético Mineiro personalizada com seu nome, simbolizando o reconhecimento por sua dedicação.
A história de Seu Zé também evidencia o panorama do analfabetismo entre os idosos no Brasil. Segundo dados de 2025, o país tinha aproximadamente 4,8 milhões de analfabetos com 60 anos ou mais, o que representa 14,9% dessa faixa etária. Destes, 58% eram considerados analfabetos completos, e a taxa de analfabetismo entre pretos ou pardos nessa faixa etária era significativamente maior, chegando a 20,6%, quase três vezes superior à de brancos, que era de 7,3%.
Na capital mineira, Belo Horizonte, a presença de idosos na EJA é expressiva, com cerca de 24,9% dos estudantes na faixa de 60 a 79 anos e outros 3,2% com 80 anos ou mais, segundo dados da Prefeitura. A trajetória de Seu Zé reforça a importância de políticas de inclusão e de estímulo ao aprendizado ao longo de toda a vida, além de servir de exemplo de resiliência e determinação para toda a sociedade. Sua história demonstra que a educação pode transformar vidas, independentemente da idade, e que nunca é tarde para buscar novos horizontes.








