Faleceu nesta terça-feira, 22 de outubro, aos 95 anos, o renomado jornalista e escritor Zuenir Ventura, uma das figuras mais influentes do jornalismo brasileiro. Natural de Além Paraíba, município localizado na Zona da Mata de Minas Gerais, Ventura morreu devido a uma pneumonia, conforme informou a Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual era membro desde 2015. Sua trajetória, marcada por sete décadas de atuação, consolidou-se por meio de reportagens, livros e uma dedicação constante à defesa dos direitos humanos.
O corpo de Zuenir Ventura será velado na sede da ABL, no Rio de Janeiro, nesta quarta-feira, 23, e posteriormente será sepultado no mausoléu da instituição, localizado no Cemitério São João Batista. Sua morte representa a perda de uma das maiores referências do jornalismo e da literatura brasileira, cuja obra atravessou diferentes períodos históricos do país, registrando transformações políticas, culturais e sociais.
Ao longo de sua carreira multifacetada, Ventura atuou como repórter, editor, cronista, professor e escritor, tendo contribuído para veículos de grande expressão na imprensa brasileira, incluindo Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo, onde também foi colunista. Sua atuação acadêmica se estendeu à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e à Escola Superior de Desenho Industrial, posteriormente incorporada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
A trajetória de Ventura começou de maneira humilde. Antes de ingressar no jornalismo, trabalhou ao lado do pai, que era pintor de paredes, além de exercer funções como contínuo de banco, faxineiro de bar e balconista. Durante seus estudos de Letras Neolatinas, conseguiu um emprego como arquivista noturno na Tribuna da Imprensa, onde, em 1956, iniciou sua carreira jornalística que o tornaria uma referência para várias gerações de profissionais.
Entre suas obras mais emblemáticas está o livro “1968 – O Ano que Não Terminou”, publicado em 1988. A obra revisitou os acontecimentos e personagens daquele período turbulento da história brasileira, consolidando-se como uma de suas principais contribuições à literatura de não ficção. A obra alcançou 48 edições e vendeu mais de 400 mil exemplares, além de servir de inspiração para a minissérie “Anos Rebeldes”, exibida pela TV Globo. Décadas depois, Ventura retornou ao tema com “1968 – O que fizemos de nós”, uma reflexão sobre o legado daquele ano.
A produção de Ventura foi além do contexto de 1968. Em 1993, passou cerca de dez meses na favela de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, experiência que resultou no livro-reportagem “Cidade Partida”, publicado em 1994. A obra abordou a violência e as desigualdades urbanas, recebendo o Prêmio Jabuti de Reportagem e sendo traduzida para o italiano. Sua atuação jornalística também se destacou na cobertura de episódios marcantes da história brasileira, como a morte do jornalista Vladimir Herzog durante a ditadura militar, o atentado do Riocentro, além de eventos internacionais como a Revolução dos Cravos em Portugal.
Na literatura, Ventura publicou diversos títulos, incluindo “Inveja – Mal Secreto”, “Minhas Histórias dos Outros”, “Crônicas de um Fim de Século”, “O Rio de J. Carlos”, “70/80 – Cultura em Trânsito: da Repressão à Abertura” (em coautoria com Heloisa Buarque de Hollanda e Elio Gaspari), “Conversa sobre o Tempo” (com Luis Fernando Verissimo) e o romance “Sagrada Família”. Sua atuação também foi marcada pelo compromisso com os direitos humanos, tendo recebido, em 2008, um troféu especial da Organização das Nações Unidas (ONU) por sua destacada defesa na mídia brasileira ao longo de três décadas. Em 2010, foi eleito “Jornalista do Ano” pela Associação dos Correspondentes Estrangeiros.
Além do jornalismo, Ventura deixou sua marca no jornalismo cultural, tendo sido convidado, em 1985, para reformular a revista Domingo, do Jornal do Brasil. Sua trajetória foi reconhecida publicamente em 2026, durante a exibição do documentário “Mestre Zu”, dirigido por Zelito Viana, que recuperou episódios de sua vida e carreira.
Zuenir Carlos Ventura nasceu em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais. Ainda criança, mudou-se com a família para Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, onde cresceu em um ambiente desprovido de livros ou jornais, o que contrasta com sua futura trajetória de destaque na mídia. Desde jovem, trabalhou em diversas funções para ajudar no sustento familiar, incluindo atividades como pintor, contínuo e balconista. Durante seus estudos em Letras Neolatinas, conseguiu seu primeiro emprego na Tribuna da Imprensa, onde iniciou sua carreira jornalística.
Em 30 de outubro de 2014, Ventura foi eleito para a Cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo o escritor Ariano Suassuna. Sua posse ocorreu em 6 de março de 2015, sendo recebido pela acadêmica Cleonice Berardinelli. Sua trajetória, iniciada nos arquivos de uma redação e consolidada por meio de reportagens, livros e personagens, ajudou a moldar a compreensão de importantes momentos do Brasil contemporâneo. Deixa a esposa, Mary Ventura, com quem viveu por décadas, além de dois filhos, Elisa e Mauro, e netos.
A morte de Zuenir Ventura representa uma perda significativa para o jornalismo, a literatura e a história do Brasil, deixando um legado de dedicação, ética e compromisso com a narrativa de seu país.






