Uma jovem nadadora de Belo Horizonte, Maria Eduarda Porto, de 18 anos, conquistou uma trajetória de superação que a levou a representar o Brasil em uma competição internacional de atletas transplantados. Após enfrentar uma série de desafios de saúde desde o nascimento, Duda, como é conhecida, conseguiu realizar um transplante de rim e se recuperou de um longo período de tratamento, incluindo 19 cirurgias e anos de hemodiálise, para retornar às piscinas e treinar com foco na participação nos Jogos Pan-Americanos de Atletas Transplantados, previstos para ocorrer em Maldonado, no Uruguai, entre os dias 21 e 25 de outubro.
A história de Duda é marcada por dificuldades que começaram no momento do nascimento. Prematura de seis meses, ela nasceu com uma má formação no canal ureter direito, condição que levou à realização de uma cirurgia logo no seu primeiro dia de vida. Sua mãe, Valeska Porto, relembra que a filha nasceu em estado grave, com duas paradas cardíacas durante os primeiros 45 dias de internação na UTI, e que os médicos inicialmente duvidaram de sua sobrevivência. A má formação do sistema urinário obrigou Duda a retirar o rim direito aos três anos de idade, quando seu rim esquerdo já apresentava apenas 40% de funcionalidade.
A situação agravou-se em 2019, quando o rim remanescente de Duda deteriorou-se ainda mais, levando à necessidade de um transplante. Durante o período de espera por um doador compatível, ela foi submetida a sessões de hemodiálise, chegando a pesar apenas 14 quilos. A esperança renovou-se em novembro de 2020, quando, após uma sessão de diálise, ela pediu a seu pai que escrevesse uma carta ao Papai Noel pedindo um rim. Minutos depois, recebeu a notícia de que um doadora havia sido encontrada: uma adolescente de 13 anos que morreu após sofrer um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em Ipatinga, município localizado a cerca de 200 km de Belo Horizonte. A doação dos órgãos dessa jovem salvou a vida de Duda, que foi submetida ao procedimento cirúrgico no mesmo dia.
O transplante foi possível graças à decisão da família da doadora, que autorizou a doação dos órgãos. A doação de um rim de uma adolescente que faleceu após um AVC foi fundamental para que Duda pudesse continuar sua luta pela saúde e pelo esporte. Desde então, ela passou por diversas cirurgias — totalizando 19 ao longo de sua vida — e enfrentou um longo processo de recuperação, que incluiu a retomada das atividades diárias e, posteriormente, o retorno ao treinamento de natação.
A dedicação de Duda ao esporte é notável. Ela treina de três a quatro horas por dia, de segunda a sexta-feira, preparando-se para a competição internacional. Sua rotina de treinos inclui a realização de diversos metros na piscina, com foco em provas específicas, sob orientação de seu treinador. Sua participação nos Jogos Pan-Americanos de Atletas Transplantados representa uma conquista não apenas esportiva, mas também uma vitória pessoal e uma demonstração de que a superação de obstáculos de saúde pode ser compatível com a realização de sonhos.
A trajetória de Duda evidencia ainda a importância da doação de órgãos no Brasil, que é fundamental para salvar vidas. Minas Gerais é o segundo estado brasileiro em número de transplantes realizados, com mais de 600 procedimentos até a primeira semana de setembro de 2023, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde. O estado também lidera em transplantes de córnea, com mais de 800 realizados até o mesmo período. No país, o total de transplantes de órgãos e tecidos ultrapassa 6 mil procedimentos ao longo do ano, reforçando a relevância da conscientização sobre a doação.
Atualmente, mais de 78 mil pessoas aguardam por órgãos e tecidos no Brasil, com cerca de 4,4 mil na fila de Minas Gerais, onde a taxa de recusa familiar para doação é de 37%, abaixo da média nacional de 45%. A história de Duda exemplifica como a decisão de uma família em doar órgãos pode transformar vidas, reforçando a importância da doação de órgãos e sua contribuição para a saúde pública e o esporte de alto nível.







