Dois moradores de Minas Gerais dedicaram os últimos cinco anos ao desenvolvimento de um acessório destinado a reduzir acidentes causados por linhas com cerol e outros objetos cortantes no trânsito. Trata-se de uma haste de fibra de vidro que pode ser instalada facilmente nas motocicletas, oferecendo uma camada adicional de proteção tanto para condutores quanto para passageiros.
A iniciativa nasceu após uma tragédia que sensibilizou os criadores. Demétrio da Silva e seu filho, Hércules Fabiano, tomaram conhecimento do falecimento de um motociclista que havia acabado de adquirir sua moto e foi atingido por uma linha cortante, resultando em sua morte. Motivados pelo episódio, eles passaram a buscar uma solução que pudesse evitar que incidentes semelhantes se repetissem, especialmente em uma região onde acidentes com linhas de cerol têm sido frequentes.
O projeto apresenta uma grande vantagem por sua versatilidade: a haste pode ser utilizada com ou sem o báu, na parte traseira da moto, sem prejudicar o uso do veículo. Além disso, o produto já possui registro junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), garantindo sua proteção legal e possibilidade de comercialização.
Durante o desenvolvimento, os criadores enfrentaram desafios relacionados à segurança do usuário. Como a haste será instalada em vias públicas, foi necessário escolher materiais que não oferecessem riscos adicionais. Demétrio explica que, inicialmente, buscavam um material condutor, mas perceberam que isso poderia gerar riscos de choques elétricos ou até mesmo de atração de raios em dias chuvosos. Assim, optaram pela fibra de vidro, material não condutor, que atende às necessidades de proteção sem riscos à integridade física do usuário.
Outro diferencial do dispositivo é sua eficácia na cobertura de pontos considerados vulneráveis em outros sistemas existentes no mercado. Segundo Demétrio, as antenas atualmente disponíveis apresentam um ponto cego, uma área entre a antena e o piloto onde a linha cortante pode atingir o condutor. A haste desenvolvida pela equipe foi projetada para eliminar esse ponto de vulnerabilidade, protegendo tanto o motociclista quanto o garupa, que também estará resguardado ao seu lado.
No que se refere às regulamentações, os criadores procuraram garantir que a instalação do acessório estivesse de acordo com as normas de segurança do trânsito. Durante o processo de registro junto ao INPI, também buscaram a análise de uma empresa especializada em segurança veicular e a aprovação do Departamento Estadual de Trânsito de Minas Gerais (DETRAN). O produto será fornecido pré-montado, facilitando sua instalação e uso, além de estar disponível para envio a qualquer região do Brasil por Correios ou transportadoras.
A comercialização está prevista para iniciar oficialmente em aproximadamente duas semanas, por canais diretos de contato e plataformas de vendas. Especialistas na área de trânsito, como o professor da Universidade Federal de Ciência e Inovação de Minas Gerais, Aguimar Bento Teodoro, destacam a importância de inovações voltadas à segurança do motociclista. Segundo ele, além do uso de equipamentos de proteção, é fundamental conscientizar os condutores sobre os perigos das linhas de cerol e linhas chilenas, que representam riscos reais de acidentes graves.
Dados recentes do Hospital João 23, em Belo Horizonte, indicam que até junho de 2026, 16 internações de vítimas de acidentes com linhas cortantes foram registradas na capital. Além disso, a Associação Brasileira de Educação para o Trânsito (Abetran) estima que, nos primeiros cinco meses do ano, pelo menos 35 pessoas tenham sido atendidas em unidades de pronto atendimento e hospitais da rede pública de Belo Horizonte por ferimentos relacionados a esse tipo de linha cortante.
A legislação mineira é rigorosa no combate ao uso e comercialização de cerol e similares. A Lei Estadual proíbe a posse, venda e uso de linhas cortantes, incluindo as modificadas com cerol ou produzidas industrialmente, como as linhas chilenas. A capital também possui regras específicas, que incluem multas de R$ 2.000 para quem for flagrado usando as linhas e de R$ 4.000 para quem comercializar ou armazenar o material, com penalidades que podem levar à cassação do alvará de funcionamento em caso de reincidência. Além das penalidades administrativas, o uso de linhas cortantes pode configurar crime de trânsito ou crime comum, com possíveis responsabilizações penais para os infratores, especialmente em casos de acidentes fatais ou lesões graves.
A iniciativa dos mineiros representa uma tentativa de reduzir a incidência de acidentes envolvendo linhas cortantes, que continuam causando vítimas no estado, reforçando a necessidade de ações preventivas e de conscientização para minimizar esses riscos.








