A violência urbana e a criminalidade são os principais problemas apontados pelos mineiros, segundo levantamento realizado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG). A consulta pública ouviu 4.376 pessoas em 515 cidades entre abril e setembro deste ano. Os resultados do projeto “Você no Controle” foram divulgados nesta terça-feira (3/11) e têm o objetivo de orientar o planejamento das fiscalizações do tribunal a partir das demandas apresentadas diretamente pela população.
Os participantes puderam selecionar mais de uma área considerada capaz de afetar o cotidiano. A violência urbana e a criminalidade receberam 2.551 votos. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o tema foi escolhido por 66,3% dos moradores consultados, consolidando-se como a principal preocupação entre os entrevistados.
Percepção ocorre em meio a alertas sobre a segurança pública
O resultado da consulta aparece em um contexto de críticas ao sucateamento das forças de segurança e de preocupação com o avanço de diferentes modalidades criminosas. Dados do Atlas da Violência 2026 indicam que Minas Gerais registrou aumento de 240% nos chamados homicídios ocultos, que passaram de 358, em 2023, para 1.218, em 2024.
Os homicídios ocultos correspondem às Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI). São casos em que o Estado não consegue definir a motivação ou mesmo a natureza do óbito. Nessa classificação, não é possível determinar inicialmente se a pessoa morreu em decorrência de acidente, suicídio ou homicídio.
Para Ludmila Ribeiro, professora do Departamento de Ciência Política e pesquisadora da Rede Feminina de Estudos de Violência, Justiça e Prisões (Rede Femjusp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a preocupação dos mineiros acompanha uma tendência observada em outras partes do país.
Segundo ela, saúde e educação costumavam ocupar o topo das preocupações, mas o aumento de crimes de rua modificou essa percepção. A pesquisadora cita a alta em furtos de celulares, extorsões e golpes virtuais como fatores que ampliam o medo da população. Para Ludmila, o receio não está relacionado apenas à perda do aparelho, mas também ao risco de perder o acesso a informações e serviços que fazem parte da vida digital.
Pesquisadora aponta enfraquecimento da Polícia Civil
Ludmila também relaciona a percepção de insegurança à falta de investimentos na Polícia Civil de Minas Gerais. Na avaliação dela, a corporação foi “sucateada completamente” e hoje o estado teria mais policiais penais, responsáveis pela guarda de presos, do que policiais civis, que atuam em inteligência e investigação.
A pesquisadora afirma que, nos últimos 20 anos, a Polícia Militar foi priorizada na destinação de recursos e melhorias, enquanto a Polícia Civil perdeu espaço. Ela destacou que operações de alcance nacional, como a Carbono Oculto, demonstram a importância de uma estrutura policial preparada para investigar e combater organizações criminosas.
Para Ludmila, a ausência de investimentos em investigação favorece a expansão do crime organizado. Segundo ela, uma política baseada exclusivamente na presença de policiais nas ruas não é suficiente para identificar como as organizações criminosas se estruturam em Minas Gerais, estado que possui muitas divisas.
Entidade cobra efetivo e equipamentos para investigadores
Wemerson Oliveira, presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil de Minas Gerais (Sindpol-MG), afirmou que o resultado da consulta pública revela uma sensação de que o estado estaria se tornando uma “terra sem lei”. Ele criticou a decisão do governo de concentrar investimentos no policiamento ostensivo e defendeu a ampliação da capacidade de investigação.
Na avaliação de Oliveira, prender apenas o responsável pela venda de drogas não interrompe a cadeia criminosa se os responsáveis pela organização e pelo comando continuarem livres. O presidente do sindicato afirmou ainda que a falta de investimentos teria facilitado a entrada de facções criminosas no estado e alertou que os criminosos estariam avançando mais rapidamente do que as forças de segurança.
O Sindpol-MG defende o aumento do efetivo da Polícia Civil. Oliveira afirmou que o número atual de servidores seria adequado apenas para a realidade de 2008. Ele citou uma promessa da atual gestão de realizar concurso para 3 mil vagas, mas ressaltou que a efetivação do processo dependerá do governo que será empossado, e não mais de Mateus Simões (PSD).
O dirigente também criticou as condições de trabalho. Segundo ele, os computadores utilizados pelos investigadores têm mais de 16 anos e a internet das delegacias de Homicídios e de Fraudes seria paga pelos próprios servidores. Para Oliveira, o cenário prejudica a população e compromete a capacidade de resposta do Estado.
Policiais penais relatam superlotação nas unidades
Jean Otoni, presidente do Sindicato dos Policiais Penais de Minas Gerais (Sindppen-MG), apontou a superlotação do sistema prisional como outro sinal do sucateamento da segurança pública. De acordo com ele, não há efetivo suficiente para garantir a manutenção da ordem nos presídios.
Otoni afirmou que, além do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital (PCC), outras 13 facções teriam chegado a Minas Gerais. O sistema prisional reúne cerca de 80 mil presos e conta com aproximadamente 15 mil policiais penais. Na avaliação do sindicalista, a criminalidade dentro das unidades prisionais acaba tendo reflexos nas ruas.
TCE-MG promete devolver resultados à população
Thiago Henrique da Silva, diretor de auditoria e avaliação de políticas públicas do TCE-MG, informou que o tribunal pretende encaminhar o relatório do projeto às pessoas que participaram da consulta. Em uma segunda etapa, o órgão deverá apresentar fiscalizações já realizadas ou concluídas que tenham relação com as demandas apontadas pelos cidadãos.
A intenção é mostrar quais medidas foram fiscalizadas, quais problemas foram identificados e que determinações foram feitas aos gestores públicos para melhorar os serviços. O presidente do TCE-MG, Durval Ângelo, afirmou que o tribunal deverá utilizar suas atribuições para cobrar o cumprimento da legislação e responsabilizar agentes públicos que não entregarem os serviços prometidos.
O governo de Minas Gerais foi procurado para comentar a preocupação demonstrada pelos cidadãos e informar as ações de segurança pública desenvolvidas em conjunto com as administrações municipais. Até a divulgação da matéria, o retorno não havia sido recebido.







