As eleições de 2026 para deputados federais demonstraram de forma clara a crescente influência da internet e das redes sociais no processo democrático brasileiro. Candidatos que conseguiram transformar sua presença digital em votos expressivos atingiram resultados relevantes em diferentes regiões e campos políticos, reforçando a importância do ambiente online na atual disputa eleitoral.
Um dos exemplos mais emblemáticos dessa tendência é o estado de Minas Gerais. Nikolas Ferreira, filiado ao Partido Liberal (PL) e conhecido por seu alinhamento político bolsonarista, conquistou mais de 3,1 milhões de votos, tornando-se o deputado mais votado da história do Brasil. Sua votação ultrapassou em mais do que o dobro os 1,49 milhão de votos obtidos na eleição anterior, em 2022. Ferreira, que possui uma base de mais de 22 milhões de seguidores no Instagram, não conseguiu apenas impulsionar sua própria candidatura: apoiado publicamente por ele, outros 21 candidatos também foram eleitos na mesma eleição, todos no âmbito da Câmara dos Deputados.
Outro destaque de Minas Gerais foi a jovem Ana Elisa, de 21 anos, filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT). Ela obteve mais de 500 mil votos na sua primeira disputa por uma cadeira na Câmara, demonstrando o peso das redes sociais no debate político contemporâneo. Ana Elisa afirmou à reportagem do Metrópoles que o fortalecimento das redes é fundamental para o avanço da esquerda, destacando a necessidade de mobilização digital. “Se a esquerda não dominar as redes sociais, vamos perder”, declarou, reforçando a estratégia de trazer a militância para o ambiente online.
No estado de São Paulo, Lucas Pavanato, também do PL, passou de vereador na capital paulista a ser o deputado federal mais votado na maior base eleitoral do país, com mais de 3 milhões de votos. Sua ascensão foi impulsionada por um forte engajamento nas redes sociais, incluindo mais de 5,5 milhões de seguidores no Instagram, além de debates frequentes na internet contra figuras de esquerda em podcasts no YouTube. Sua campanha, marcada por uma presença digital intensa e investimentos em comunicação online, foi fundamental para sua vitória.
Outras figuras que se destacaram pelo uso das plataformas digitais foram Erika Hilton, do PSol, e Eduarda Campopiano, do PL. Erika, com mais de 6,2 milhões de seguidores nas redes sociais, conquistou 1,4 milhão de votos, tornando-se a mulher mais votada na história do Brasil para a Câmara dos Deputados. Já Eduarda, de 23 anos, recebeu 1,8 milhão de votos na eleição estadual de São Paulo, sendo a mais votada na história da capital paulista, além de obter 3.583 votos na disputa por uma vaga na Câmara de Praia Grande em 2024. Ela também é conhecida por sua postura combativa nas redes sociais, autodenominando-se “a maior inimiga das feministas de São Paulo”.
No Rio de Janeiro, outro nome que se destacou foi Rick Azevedo, do PSol. Criador do projeto de lei pelo fim da escala 6×1, Azevedo foi o segundo deputado federal mais votado no estado, com 191.371 votos, após sua eleição como vereador com 29.364 votos em 2024. Elias Jabbour, do PCdoB, também obteve destaque ao conquistar sua primeira vaga na Câmara Federal com mais de 100 mil votos, resultado de uma campanha marcada por debates na internet e forte presença em vídeos com milhões de visualizações, consolidando sua projeção no cenário político fluminense.
Em Pernambuco, Jones Manoel, do PSol, destacou-se por sua atuação digital. Com uma campanha centrada na presença constante nas redes sociais e debates online, obteve 249.077 votos na sua primeira eleição federal, ficando atrás apenas de Pedro Campos, do PSB. Sua estratégia incluiu vídeos diários no YouTube, participação em podcasts e forte arrecadação via financiamento coletivo, que mobilizou mais de 12 mil doadores e arrecadou cerca de R$ 639 mil.
Segundo o especialista em relações governamentais e professor da Ibmec, Eduardo Galvão, o uso das redes sociais tornou-se uma ferramenta essencial na campanha política, especialmente para candidaturas proporcionais. Ele explica que as plataformas digitais passaram a contribuir não apenas na divulgação, mas na formação de identidade política, mobilização, arrecadação de recursos e organização de comunidades de apoiadores. Galvão destaca que a ampliação do alcance online permite que candidatos atinjam uma base de eleitores maior, mudando a lógica tradicional de campanha, que antes era mais restrita ao espaço físico.
O professor também ressaltou que, embora as redes tenham fortalecido a candidatura individual, o sistema eleitoral brasileiro ainda depende do apoio partidário para converter votos em cadeiras no Congresso. Ele apontou que os casos de Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato ilustram como a presença digital e o investimento em comunicação online podem impulsionar candidaturas e transformar seguidores em votos expressivos. Além disso, Galvão observou que candidatos como Jones Manoel e Elias Jabbour demonstram que o potencial das redes não é exclusivo de um campo ideológico, sendo uma ferramenta acessível a diferentes espectros políticos, desde que bem utilizada.
Esses exemplos reforçam a tendência de que as redes sociais se consolidaram como elementos estratégicos na disputa eleitoral brasileira, contribuindo para a ascensão de candidatos com forte presença digital e mudando a dinâmica do processo político no país.







