
PF investiga emendas para cidades onde Eduardo Cunha ampliou rede de rádios em Minas
Guarani e Raul Soares receberam recursos incluídos na investigação; ex-presidente da Câmara nega ligação entre as verbas e os investimentos em comunicação
Uma investigação da Polícia Federal apura a participação do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, filiado ao Republicanos, na destinação de emendas parlamentares para municípios de Minas Gerais onde ele adquiriu ou planejava ampliar emissoras de rádio.
Cunha não exerce mandato parlamentar desde 2016, mas, segundo a Polícia Federal, teria atuado na definição de valores e na escolha de cidades beneficiadas por recursos da Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados.
A investigação menciona 29 emendas articuladas entre outubro e dezembro de 2025. Na decisão judicial, foram identificadas pelo menos 21 emendas empenhadas ou pagas, que somam aproximadamente R$ 6,15 milhões.
STF determinou bloqueio de bens
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de até R$ 6,1 milhões em bens e ativos de Eduardo Cunha. Também foi suspensa a execução das emendas investigadas.
De acordo com a decisão, existiria um possível “arranjo decisório paralelo”, no qual Cunha exerceria influência sobre a distribuição de recursos mesmo sem ocupar cargo público. A Câmara dos Deputados foi intimada a entregar documentos relacionados à tramitação das emendas.
A investigação aponta que a servidora da Câmara Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, teria organizado e encaminhado as solicitações de acordo com orientações atribuídas a Cunha.
Recursos para cidades mineiras
Entre os municípios relacionados pela investigação estão Varjão de Minas, Raul Soares, Lajinha, Piau, Carmo do Cajuru, Guarani, São João Nepomuceno, Três Corações, Poté, Rio Preto, Santa Rita do Sapucaí e outras cidades mineiras.
Em Varjão de Minas, uma emenda de R$ 590 mil foi apresentada para o custeio da atenção primária à saúde. Oficialmente, o recurso apareceu vinculado à liderança do Republicanos na Câmara, exercida pelo deputado Gilberto Abramo. Posteriormente, porém, o prefeito Rafael de Toni atribuiu publicamente o recurso a Eduardo Cunha.
Em Piau, na Zona da Mata, o presidente da Câmara Municipal, Mica Carvalho, afirmou em vídeo que trabalhou “juntamente com Eduardo Cunha” para conseguir R$ 300 mil para a saúde do município.
Rádio comprada em Guarani passou a operar em Ubá
Guarani recebeu uma emenda de R$ 250 mil incluída na planilha apreendida pela Polícia Federal. Antes da liberação do recurso, Cunha havia adquirido a antiga Rádio Tropical FM 92,7, que passou a adotar o nome Rádio Maravilha.
Posteriormente, a operação foi transferida para Ubá, cidade maior da Zona da Mata e localizada a cerca de 45 quilômetros de Guarani. A mudança ampliou o público potencial alcançado pela emissora.
Atualmente, a emissora aparece em guias especializados como Maravilha FM 89,9 de Ubá, com programação religiosa e gospel. O histórico da estação registra que ela já operou como Tropical FM, Máxima FM e Top FM, anteriormente na frequência 92,7.
O prefeito de Guarani, Emerson Patrick, anunciou a chegada dos R$ 250 mil como recurso obtido por meio da bancada mineira, sem citar diretamente Eduardo Cunha. A emenda, entretanto, aparece entre as verbas que a PF atribui à atuação do ex-deputado.
Emissora de Raul Soares passou a alcançar o Vale do Aço
Outro caso destacado é o de Raul Soares, município que recebeu R$ 472.980 entre os recursos investigados. No mesmo período, Cunha adquiriu a Rádio Sociedade Entre Rios, tradicional emissora que operava em 1460 AM.
Após a migração do AM para o FM, a estação passou a integrar a Rede Maravilha na frequência 89,5 FM. O sinal é direcionado para uma área regional que inclui Raul Soares, Caratinga e Ipatinga, no Vale do Aço. A emissora também mantém programação predominantemente religiosa e gospel.
Segundo informações do setor de radiodifusão, a estação surgiu da migração da antiga AM 1460 e passou a operar como uma emissora regional de maior potência, ampliando consideravelmente a área de cobertura original.
Rede Maravilha ampliou presença em Minas
A Rede Maravilha acelerou sua expansão em Minas Gerais durante 2025 e nos primeiros meses de 2026. Além de Ubá e da região de Ipatinga, a rede passou a contar com operações ou projetos em cidades como Belo Horizonte, Juiz de Fora, Uberlândia, Uberaba, João Pinheiro, Leopoldina, Pirapora, Além Paraíba e São Roque de Minas.
As emissoras têm formato principalmente religioso e gospel, mas também apresentam programas de entrevistas, informação e debates. Eduardo Cunha participa da programação de algumas estações e já concedeu entrevistas às próprias rádios para comentar a investigação.
Eduardo Cunha nega irregularidades
Eduardo Cunha nega ter indicado formalmente as emendas. Segundo ele, foram apresentadas sugestões ao Republicanos e a decisão final sobre os municípios beneficiados teria sido tomada por deputados com mandato.
O ex-parlamentar também afirma que não existe relação entre as verbas destinadas às prefeituras e a compra ou ampliação das emissoras. Cunha declarou que os projetos de transferência e aumento do alcance das rádios já existiam antes da destinação dos recursos.
A defesa sustenta ainda que Cunha não recebeu os valores das emendas e que a decisão judicial não aponta o recebimento de vantagem financeira pelo ex-deputado. Os recursos tinham como destinatários municípios e outras instituições públicas.
As investigações continuam e ainda não representam uma condenação. Caberá às autoridades analisar a documentação, a tramitação dos recursos e a eventual existência de irregularidades na escolha das cidades beneficiadas.








