A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) surpreendeu dirigentes e parlamentares de partidos do Centrão que haviam declarado apoio ao candidato do PL no segundo turno. Um dia após a eleição, lideranças de Republicanos, União Brasil e PP já admitiam a possibilidade de retomar o diálogo com o governo petista para garantir a governabilidade no quarto mandato de Lula.
Até o momento, não há negociações formalizadas para a indicação de ministros ou para a distribuição de cargos. Interlocutores das siglas, porém, avaliam que o resultado das urnas inaugura uma nova etapa de conversas com o Palácio do Planalto. A perspectiva é que os partidos de centro possam participar da sustentação do governo no Congresso, ainda que tenham apoiado o adversário durante a campanha eleitoral.
O deputado federal Ricardo Barros (PP-PR) afirmou que a participação de partidos de centro na base de governos faz parte da lógica do presidencialismo de coalizão. Segundo ele, essa postura integra o “DNA do Centro”. Barros também destacou que o governo já mantém interlocução com integrantes dessas legendas em estados como Paraíba, Ceará e Maranhão, onde existem alianças locais com o PT.
Entre os exemplos citados está o senador Otto Alencar (PSD-BA), aliado de Lula na Bahia e defensor da reeleição do petista, apesar da posição adotada nacionalmente pelo PSD. Outro caso é o do senador Eduardo Braga (MDB-AM), que articulou o apoio de dez diretórios estaduais do MDB à candidatura de Lula no segundo turno.
No Republicanos, o deputado Silvio Costa Filho (PE), que ocupou o cargo de ministro de Portos e Aeroportos durante o terceiro mandato de Lula, manteve uma relação próxima com o presidente e declarou apoio à reeleição, contrariando a orientação nacional do partido. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), também apoiou Lula durante a campanha e preservou o diálogo com o Planalto, mesmo depois de a legenda anunciar apoio a Flávio Bolsonaro.
No PP, André Fufuca (MA), ex-ministro do Esporte e eleito senador, igualmente defendeu a permanência de Lula no cargo, em oposição à direção nacional da sigla. A posição resultou em punições internas determinadas pelo presidente do partido, Ciro Nogueira.
Ricardo Barros avaliou que ainda é prematuro discutir a distribuição de ministérios, mas afirmou que Lula tem experiência na relação com os partidos de centro. Para o deputado, a aproximação deverá ocorrer em algum momento, considerando a necessidade de o Executivo construir apoio no Congresso.
PT diferencia alianças eleitorais de base parlamentar
A avaliação é semelhante à apresentada pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva. Segundo ele, nenhum governo consegue formar maioria no Congresso sem negociar com diferentes partidos. O dirigente ressaltou, contudo, que a construção de uma base parlamentar é uma discussão distinta das alianças firmadas durante a campanha eleitoral.
Edinho afirmou que, após o encerramento do processo eleitoral no domingo (25), caberá ao governo definir o momento e a forma de iniciar as conversas com as siglas. A eventual reaproximação ocorre paralelamente às primeiras manifestações públicas dos presidentes partidários depois da derrota de Flávio Bolsonaro.
Na segunda-feira (26), Antonio Rueda, presidente do União Brasil, reconheceu a reeleição de Lula e declarou que o resultado proclamado pela Justiça Eleitoral deve ser respeitado. O dirigente também colocou o partido à disposição para apoiar medidas voltadas ao crescimento econômico, à geração de empregos e à redução das desigualdades.
O Republicanos também reconheceu a vitória do petista. Em manifestação pública, o presidente da legenda, Marcos Pereira, afirmou que Lula deverá governar para todos os brasileiros, inclusive para aqueles que votaram em Flávio Bolsonaro, e defendeu a manutenção do diálogo com o Congresso.
MDB e PSD adotaram posicionamentos semelhantes. O MDB declarou que a vontade expressa nas urnas deve ser respeitada. Já o PSD sinalizou disposição para manter uma relação institucional com o novo governo, preservando a autonomia de seus parlamentares.
Após o resultado divulgado no domingo (25), Flávio Bolsonaro chegou a afirmar que buscaria a anulação da eleição. Na segunda-feira (26), entretanto, mudou de estratégia diante dos obstáculos jurídicos apontados por aliados e advogados. No mesmo dia, Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, reconheceu o resultado da eleição presidencial.
Republicanos vê Tarcísio fortalecido após derrota presidencial
A derrota de Flávio também surpreendeu parlamentares do Republicanos que apostavam na vitória do candidato do PL. Apesar do resultado presidencial, a avaliação interna da legenda é de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, termina o processo eleitoral fortalecido e permanece como uma das principais lideranças da direita.
Dentro do partido, há o entendimento de que Tarcísio teria condições de derrotar Lula caso tivesse disputado a Presidência neste ano. A legenda o considera um possível sucessor político do campo bolsonarista. A avaliação, no entanto, é acompanhada de uma ressalva: ainda faltam quatro anos para a próxima eleição presidencial, período em que o cenário político poderá sofrer mudanças.







