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Pesquisadores descobrem inscrições e vestígios de presos políticos nas paredes do antigo Dops de Belo Horizonte

11/09/2026
Em Policial
Tempo de leitura:4 minutos de leitura
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Divulgação/UFMG

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Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) revelaram, por meio de escavações arqueológicas realizadas no antigo Departamento de Ordem Política e Social de Minas Gerais (Dops/MG), registros de poesias, músicas e outros vestígios deixados por presos políticos durante o período da ditadura militar brasileira. Os achados, que incluem inscrições nas paredes do edifício, além de fragmentos de materiais diversos, compõem o livro “Memórias aprisionadas: arqueologia da repressão e da resistência no Dops/MG”, que será lançado nesta sexta-feira (11/9), em Belo Horizonte.

A pesquisa, conduzida pelos professores Andrés Zarankin, Caroline Murta Lemos e Denise Costa, do Departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG, busca demonstrar como a arqueologia pode contribuir para a recuperação de memórias relacionadas à repressão política. Zarankin, que também atua como orientador do projeto, destaca que os vestígios materiais encontrados no local possibilitam uma discussão mais ampla sobre acontecimentos que foram negligenciados ou apagados pelo Estado brasileiro ao longo de décadas. Segundo ele, a memória é um elemento fundamental para dar sentido ao presente e à própria identidade social.

Durante aproximadamente dois meses, em 2020, os pesquisadores realizaram sondagens no prédio, localizado na avenida Afonso Pena, no centro de Belo Horizonte, identificando 287 fragmentos diversos. A maior parte desses materiais refere-se a elementos construtivos, que ajudam a reconstruir a história do edifício e suas transformações ao longo do tempo. Além disso, foram encontrados objetos relacionados à alimentação, uma bala de arma de fogo e materiais têxteis, ainda em análise. Entre os achados mais simbólicos estão inscrições feitas por presos políticos, que, ao serem removidas camadas de tinta, revelaram poemas e músicas deixados pelos detentos — mensagens que, na visão de Zarankin, funcionam como uma “mensagem na garrafa” que chega até os dias atuais.

Apesar de sua relevância, as escavações tiveram limitações. A investigação foi interrompida após dois meses devido à escassez de recursos, impedindo uma ampliação do projeto. Os pesquisadores também esclareceram que não foram encontrados restos humanos nos vestígios do local, explicando que é improvável que alguém tenha sido assassinado e enterrado dentro do Dops. Geralmente, as vítimas morriam durante sessões de tortura e seus corpos eram posteriormente incinerados ou descartados em túmulos clandestinos. Além das escavações, a equipe realizou análises estruturais do prédio, levantamento de depoimentos de sobreviventes e intervenções nas paredes para preservar as marcas deixadas pelos presos.

Outra ferramenta utilizada na pesquisa foi o mapeamento digital em 3D, feito com laser scanner, que permitiu registrar a arquitetura do edifício e criar uma documentação digital que resguarda informações que poderiam ser perdidas com o tempo ou alterações físicas no espaço. Essa tecnologia também possibilita reconstruções virtuais, incluindo objetos escaneados, vídeos e depoimentos, ampliando o entendimento sobre a história do local.

Zarankin destaca que a preservação do antigo Dops ultrapassa a questão da conservação de um patrimônio histórico. Segundo ele, a manutenção física desses espaços permite confrontar discursos que minimizam ou negam a violência praticada durante o regime autoritário. A estrutura atual, ocupada por movimentos sociais e transformada em um Memorial dos Direitos Humanos, funciona como um espaço de reflexão sobre a importância da democracia. Para o professor, essa transformação ajuda a fortalecer a compreensão de que a democracia, embora imperfeita, é o melhor sistema de governo.

O projeto de pesquisa foi desenvolvido de forma colaborativa, com recursos provenientes de uma emenda parlamentar por meio da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social, em parceria com a Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep) e a própria UFMG. A publicação do livro contou ainda com o apoio do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE/MG). A iniciativa representa uma incursão pioneira na arqueologia da repressão no Brasil, uma área que há décadas é estudada em outros países latino-americanos, como Argentina e Chile, mas que só recentemente começou a ser explorada no contexto brasileiro.

Segundo Zarankin, essa diferença se deve à forma como o Brasil lidou com seu passado autoritário, optando por um olhar voltado para o futuro, ao invés de confrontar as violações ocorridas durante a ditadura. Essa postura, explica, contribui para a manutenção de discursos que relativizam ou negam os crimes, dificultando processos de responsabilização e de reconhecimento das vítimas. Para o pesquisador, a arqueologia dessa natureza tem potencial de contribuir para a construção de uma sociedade mais consciente de seu passado, promovendo uma reflexão que pode influenciar o presente e o futuro.

O lançamento do livro “Memórias aprisionadas: arqueologia da repressão e da resistência no Dops/MG” será realizado às 18h30 na sede do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais, em Belo Horizonte. O evento faz parte do Movimento Literário da Educação Básica Pública Mineira, projeto de extensão da UFMG coordenado por Renata Amaral de Matos Rocha, curadora da obra. A publicação, de 180 páginas, será disponibilizada gratuitamente em formatos digital e impresso, incluindo uma exposição dos materiais recuperados e registros das escavações realizadas na ocasião.

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