O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), participou de uma reunião com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro em 11 de abril de 2024, poucos dias antes do julgamento de uma causa de interesse do empresário. O encontro ocorreu no gabinete do ministro, na sede do STF, e contou com a presença dos advogados do Banco Master, instituição financeira ligada a Vorcaro. Apesar de a reunião ter sido realizada em ambiente institucional, o ministro afirmou, em nota oficial, que não teve conhecimento de tratativas específicas ou de qualquer relação privada ou profissional com o ex-banqueiro, destacando que a audiência foi intermediada pelo empresário Chiquinho Feitosa, então cunhado de Mendes.
O contexto do encontro é relevante pelo momento em que ocorreu. Na ocasião, o STF se preparava para julgar uma ação relacionada a precatórios de usinas do setor sucroalcooleiro, tema que envolvia interesses financeiros de Vorcaro e do Banco Master. Naquele período, a carteira do ex-banqueiro continha bilhões de reais em créditos de precatórios, dívidas reconhecidas judicialmente pela União e governos estaduais, cujo pagamento estava sendo disputado judicialmente. A não validação dessas ações pelo STF poderia comprometer a recuperação desses recursos, estimados pela Advocacia-Geral da União (AGU) em aproximadamente R$ 145 bilhões, valor que representa o impacto total das indenizações não pagas ao setor até o ano passado.
Apesar da reunião, o voto do ministro Gilmar Mendes nos processos relacionados ao setor sucroalcooleiro indicou uma postura contrária aos interesses de Vorcaro. Em julgamento realizado pela Segunda Turma do STF em 3 de junho de 2025, Mendes votou contra o pagamento de precatórios defendido pelo Banco Master, posicionando-se ao lado da União. Sua posição foi vencida, sendo acompanhado pelos ministros André Mendonça, Edson Fachin, Nunes Marques e Dias Toffoli, que votaram favoravelmente às empresas do setor.
Nos processos específicos, Mendes manteve uma linha de voto contra o pagamento de precatórios. No caso do Recurso Extraordinário 1312127, envolvendo a Raízen, ele votou contra o pagamento, consolidando a vitória da União em setembro de 2024. Nas ações relacionadas à Jalles Machado (ARE 1392660), também votou contra o pagamento em duas ocasiões distintas, em agosto de 2024 e agosto de 2025, ficando vencido em ambas. Além disso, em processos como a ação que trata do precatório de mais de R$ 5 bilhões na STP 976-ED, Mendes também votou contra a liberação de valores. Em todos esses casos, sua postura foi contrária aos interesses do ex-banqueiro e do setor sucroalcooleiro, mesmo após a reunião com Vorcaro.
A nota oficial do ministro reforça que a audiência foi realizada em ambiente institucional, na sede do STF, e que não há evidências de qualquer influência ou tratativa privada envolvendo Vorcaro. A atuação de Gilmar Mendes nesses processos demonstra uma postura consistente de voto contrária às reivindicações do empresário, independentemente do encontro realizado poucos dias antes do julgamento.







