O procurador-geral da República, Paulo Gonet, enviou internamente ao Ministério Público Federal (MPF) uma manifestação de defesa de 30 páginas em preparação para o julgamento que enfrentará na próxima semana no Conselho Superior do órgão, em Brasília. No documento, obtido pela CNN, Gonet critica duramente o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, e detalha sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, negando qualquer amizade ou interesse pessoal nos processos envolvendo o empresário. A defesa foi motivada por um processo aberto a pedido do Partido Novo, após notícias de que Vorcaro teria solicitado a terceiros uma intervenção junto ao procurador-geral na Operação Compliance Zero.
No documento, Gonet afirma categoricamente que não mantém “relação de amizade alguma” com Vorcaro, tampouco possui “interesse pessoal” nos processos em que o banqueiro seja parte ou investigado. Ele classifica as acusações contra si como “descabidas e estapafúrdias”, apoiando-se em uma fala recente de Mendonça no STF, na qual o ministro afirmou não ter visto atuação irregular do procurador-geral. Gonet reforça sua convicção de estar “juridicamente plenamente apto” para atuar nos processos relacionados ao caso e solicita que seja afastada qualquer hipótese de suspeição ou impedimento.
O processo no Conselho Superior foi instaurado após denúncia de que Vorcaro teria solicitado a um terceiro que intercedesse junto ao MPF em favor dele, o que motivou a análise de eventual vínculo ou favorecimento. Para fundamentar sua defesa, Gonet cita diversas mensagens e notas recolhidas pelo Polícia Judiciária (IPJ), datadas de outubro de 2025 e novembro de 2025, que indicam supostos “reclamos do Sr. Vorcaro, em tom de desespero”, relacionados a medidas que temia na primeira instância. Gonet afirma que nunca recebeu interferência para obstruir investigações e que sempre garantiu o suporte institucional necessário aos colegas do MPF.
Durante a análise das mensagens, Gonet destaca que, embora Vorcaro tenha buscado seus advogados, Pierpaolo Bottini e Roberto Podval, para se informar sobre os processos, ele próprio não forneceu qualquer informação. O procurador-geral afirma que sua atuação sempre foi de garantir que o Ministério Público cumprisse seu papel, sem perseguir investigados, e que sua relação com Vorcaro se limita a contatos profissionais e eventos públicos.
Especificamente, Gonet relata que sua única interação presencial com Vorcaro ocorreu em Londres, em abril de 2024, durante um evento promovido pelo Grupo Voto e pela revista Consultor Jurídico, onde participou de um painel sobre “O papel do Judiciário para a estabilidade democrática”. Segundo sua versão, na ocasião, esteve com Vorcaro juntamente com outros convidados, sem estabelecer qualquer conversa de natureza profissional ou discutir atividades ilícitas do Banco Master, instituição financeira da qual Vorcaro é dirigente. Ele afirma ainda que, na época, Vorcaro era um desconhecido para ele e que o Banco Master não tinha relação com o evento, tendo sido posteriormente confirmado por escrito pelo organizador.
Gonet também refuta qualquer contato direto com Vorcaro, destacando que o relatório do IPJ indica que ele não consta na lista de contatos do banqueiro e que, além do evento em Londres, jamais esteve na residência de Vorcaro, na sede do banco ou em qualquer outro local relacionado ao empresário. Ele reforça que a única outra comunicação registrada foi uma breve ligação, em março de 2025, quando Ciro Soares, um advogado e empresário, ligou para Vorcaro e passou o telefone a Gonet, que saudou o empresário antes de a conversa terminar. Nessa ocasião, Ciro mencionou uma transação do Banco Master com o BRB, assunto que Gonet afirmou não ser de sua alçada.
O documento também esclarece que Ciro Soares é primo do então procurador de Justiça de Minas Gerais, Jarbas Soares, e possui uma relação social próxima a autoridades, o que justificaria sua credibilidade. Gonet explica que mensagens trocadas com Ciro, anteriores à crise do Banco Master, indicam apenas manifestações de apoio, sem qualquer relação com Vorcaro. Ele nega que frases como “você é uma máquina” ou “que bom! Estou na torcida por vocês!” tenham sido dirigidas ao banqueiro, atribuindo-as a Ciro.
Por fim, Gonet afirma que sua participação no evento de Londres, em 2024, não impacta sua atuação como Procurador-Geral e que chegou a recusar convite para outro evento em 2025, que foi posteriormente cancelado. Ressalta ainda que seu filho não foi convidado, nem teve contato algum com Vorcaro ou com o Banco Master, reforçando sua postura de que não há qualquer vínculo ou favorecimento nas ações que vem sendo questionadas.





